segunda-feira, 27 de abril de 2009

1968/Ramos Calhelha


 

 

Eu chegava  ao prédio da rádio Tupi, quando avistei na Padaria Real, ponto de encontro do pessoal da emissora, o Helio Ribeiro, nosso diretor, que com um aceno me convidou para um cafezinho.

Estacionei meu Renault Dauphine, e fui ao seu encontro. Helio se mostrava  inquieto e nitidamente  ansioso. Ao me aproximar soltou a pergunta bem baixinho: “o que você acha de trazermos para a rádio o Ramos Calhelha? Eu de pronto respondi “e você acha que o dr. Edmundo Monteiro, na época superintendente dos Diários Associados, vai te liberar verba pra pagar o salário dele? Você acha que ele deixa os Estados Unidos, pra vir trabalhar aqui? “

Eu ia perguntando, e ele com um sorrisinho maroto esperava eu parar com a bateria de indagações, todas sem sentido para ele, para me dar a grande notícia.  

Me fez pagar o cafezinho, e me puxou para fora da padaria em direção ao décimo andar do prédio, onde ficava sua sala. Encostou a porta, ligou seu gravador Akai de rolo, se reclinou na  cadeira com os pés em cima da mesa, enquanto a voz de Ramos Calhelha anunciava um monte de músicas. Chamou Magno Salerno e o Valdir Santos, que eram uma espécie de diretores musicais da Radio Tupi, e exibiu seu troféu.

Helio havia feito um acordo com o pessoal da Varig. Ele enviava a fita virgem com um texto elaborado por Valdir e Magno para Calhelha nos Estados Unido, e lá o locutor gravava o texto e mandava a fita de volta.

Ramos Calhelha era um ícone. Era a voz da Metro, dos jornais da tela, enfim era um profissional cobiçado, mas de certa forma, difícil de ter. Não para Helio Ribeiro.

Ele queria e arrumou a maneira de realizar seu projeto.

A primeira fita do programa, que ia lançar uma parada de sucessos, na espetacular voz de Calhelha, havia chegado. Agora, era só fazer a montagem e colocar no ar.

Helio tinha uns rompantes de criatividade e, enquanto não via a coisa finalizada, ficava inquieto. Não falava no assunto em público.  Apenas com as pessoas envolvidas ou com as mais chegadas, com quem apenas cochichava. Tinha um histórico de idéias copiadas e aproveitadas por pessoas inescrupulosas, que o chateava bastante.

Enfim afinou o projeto, e colocou no ar sua “ parada de sucessos “ com a apresentação de Ramos Calhelha. Foi um estouro!

Tempos depois quando Helio dirigiu a Rádio Capital, concretizou por completo a sua vontade, e trouxe o locutor de volta ao Brasil para trabalhar com ele.

Tive o prazer de desenvolver um projeto para a Radiobrás, com a locução do Calhelha  e a redação do jornalista Teixeira Veloso.

Gravamos vários pilotos. Todos impecáveis. O projeto serviria para transmitir programas para brasileiros residentes no exterior. Infelizmente por problemas políticos, não vingou.

Calhelha nos deixou em 2002. Vivia, já há alguns anos numa chácara em Águas de Lindóia, onde fora viver com sua família.

Só para matar a saudade, ou para os mais jovens, conhecer um ícone da radiodifusão, vale a pena ouvir a narrativa de Ramos Calhelha, nesse texto de Richard Bach, “Jonathan Gaivota .”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 20 de abril de 2009

1965/Boite Oasis


Ficava na Rua 7 de abril, em um “basement”do cine Coral, e era um dos pontos mais procurados pelos boêmios e turistas, que visitavam São Paulo.

A comida era muito boa, mas os “pockets shows” eram a atração maior. Naquele espaço apertadinho, muitas estrelas se apresentaram,  e tivemos o privilégio de participar de algumas dessas performances.

O horário dos shows era os dos verdadeiros boêmios. Invariavelmente começavam após a meia noite. Não era nada confortável para meu irmão Haya e eu, mas tinham lá as suas recompensas, como usufruir daquela comida maravilhosa, que nos era servida, como se fôssemos os melhores clientes da casa.

O primeiro show que dirigimos na Oasis, foi com o Zimbo Trio e Ellis Regina, no auge de sua carreira. Tinham chegado de uma turnê de muito sucesso pelo Peru e Argentina, e o Zimbo havia ganho o Troféu Roquete Pinto de melhor conjunto instrumental.

Fomos  procurados na Rádio Piratininga, onde produzíamos e apresentávamos o programa “Bossa à Noite “, por Roberto, um funcionário de Marcos Lazaro, empresário da cantora, que solicitava nossos serviços para a iluminação e direção de cena do show, que marcaria uma temporada do pessoal na boite.

Achamos a proposta financeira muito baixa e nos recusamos a fazer o trabalho.

Nossa contraproposta foi recusada. Mas no dia seguinte, eis que o emissário de Marcos Lazaro volta a nos procurar, o Zimbo e Ellis, impuseram nossos nomes para  execução daquele trabalho.

Foi uma temporada que deixou boas recordações. Zimbo em grande fase e Ellis, a sensação do momento, vibrando muito com a iluminação que criamos, pois destacava  os movimentos que eram uma marca registrada, das suas interpretações.

Nos bastidores, enquanto aguardávamos o horário de entrar em cena, as conversas sempre agradáveis com o Luiz Chaves, e a paquera com a crooner do conjunto, que fazia a música da casa.

Terminada essa temporada, fomos chamados para mais um trabalho na Oasis.

Dessa  vez, o show vinha do Rio e era uma adaptação da peça de Carlos Lyra e Vinícius de Morais, “Pobre Menina Rica”, e tinha no elenco Baden  Powell e Dulce Nunes, com direção de Ruy Guerra.

Baden , considerado nosso melhor violonista, já conhecíamos, mas nem com Dulce nem com Ruy, tivéramos tido oportunidade de trabalhar.

Ruy era observado pela ditadura em tudo o que fazia daí fazer algo paralelo a seus filmes e composições, como esses pockets shows.

Dulce era mulher de Benê Nunes, um pianista famoso, o preferido do presidente Juscelino, freqüentador da alta sociedade carioca, que  tinha o hábito de abrir as portas de seu luxuoso apartamento para a turma da bossa nova.

Mulher sensível, bonita  e de voz cândida, como a das primeiras intérpretes da bossa nova. Sua presença no palco era encantadora.

Nosso trabalho foi o de  executar a marcação de luz,  já concebida pelo diretor. Alguns palpites na iluminação foram dados, apenas em função das limitações do equipamento da casa.

O mais que fizemos  nesse show, foi admirar a música de Baden, a beleza e interpretação de Dulce Nunes, principalmente em ”Estrada Branca”, composição de Vinícius e Jobim, que Ruy Guerra introduziu no show.

 Infelizmente não tive  a companhia do Luiz Chaves  e nem o conjunto musical da casa tinha uma crooner...

Até a proxima segunda feira


domingo, 5 de abril de 2009

1958/Errol Garner

Durante minha estada em New York, conheci lugares aonde se ouvia   boa música e se assistia a bons shows, como no Radio City Music Hall, o Birdland e barzinhos do Greenwich Village, que eram os meus preferidos, e onde se concentravam os músicos da noite, para mostrar ao público e empresários seus talentos.

Chegava cedo, pedia uma coca cola e ficava horas ouvindo o mais puro jazz.

No Birdland, era comum assistir a orquestra de Count Basie com seu crooner  Joe Williams ou algum convidado como Sarah Vaughan, lugar espremidinho, mas incrivelmente mágico.

No tempo em que vivi na  rua 76 com Broadway, costumava ir a um barzinho chamado “Negrita’s, com um amigo filipino, de nome Andrés, que me fora apresentado por Luiz Carlos Piffero ,gaucho, que tinha um daqueles empregos fantasmas  num escritório comercial do governo brasileiro em New York, o IBC Instituto Brasileiro do Café.

Através desses amigos conheci depois o Tadeu Cvintal,  hoje, renomado oftalmologista, Murilo Melo Filho, jornalista e diretor da revista Manchete entre outros,  de quem ficaram as  lembranças de grandes noites de boemia. 

O “Negrita’s”, se não me engano, ficava na rua 45 com a Madison Avenue. Nossa chegada causava certo alvoroço, por nosso estilo brasileiro (éramos a maioria no grupo), e porque o resquício da era de Carmem Miranda ainda pairava no meio musical. Havia um respeito muito grande pela imagem da artista brasileira. Os americanos gostavam de samba, que eu arranhava um pouco no piano.

A primeira vez que fui a este bar, vi que o Andrés sussurrou algo ao ouvido da Negrita, dona e pianista da casa, que ao terminar seu turno musical,  anunciou que havia na casa, naquele momento, um pianista brasileiro. Confesso que já havia tomado umas duas ou mais doses de Johnny Walker, provavelmente, o maior estímulo para que, sem o menor pudor, me dirigisse àquele Baldwin e começasse a tocar, como se fosse um profissional da noite, o que,  definitivamente, não era. Fui empurrado ao palco logo após o anúncio, e só sai porque havia um turno a ser cumprido, e na América existia uma rigidez profissional, se entrasse alguém do sindicato, era complicação na certa.

Vez por outra, Negrita me via e pedia para dar “uma canja “. Ela sabia que a música brasileira agradava, eu também não podia reclamar, pois a caixinha que ficava em cima do piano, se enchia de dólares e Negrita dizia com um sorriso largo: “take it! “. Claro, eu não reclamava, e gastava tudo lá mesmo!

Negrita dividia a música da casa com um pianista negro como ela, e que tinha uma característica bem interessante. Seu estilo me lembrava Errol Garner, um dos meus pianistas preferidos, conhecido pela sua mão esquerda marcante. Só que ele havia adaptado o estilo de Garner a um problema físico, e eu não havia notado. Não tinha o movimento dos dedos da mão esquerda, mas colocava com precisão a mão nos acordes, bem ao estilo de Errol Garner.

Na primeira vez que o ouvi tocar e fui a ele apresentado, fiz um comentário infeliz, achando  que seria um elogio: “ Puxa você tem o estilo de Errol Garner “, ao que me respondeu fria e secamente ”Sorry ,este é o meu estilo “. Eu estava conhecendo o jeito “fino e educado” dos gringos.

Até a proxima segunda feira!



 

domingo, 29 de março de 2009

1965/Aberto para Balanço



A coluna de " show business, " que Moracy  do Val comandava no jornal "Notícias Populares" começava  assim, na edição daquela semana de abril de 1965: "Opinião generalizada de músicos e cronistas presentes anteontem no TBC: " Aberto para Balanço" foi, em termos musicais um dos melhores shows até hoje realizados em São Paulo".
E eles tinham razão! Fomos felizes a começar com a escolha do nome do show.
O TBC vinha de um sucesso estrondoso com a peça "Os Ossos do Barão"com Otelo Zeloni e grande elenco, e ficaria fechado para algumas manutenções necessárias, pois a peça estava a pelo menos um ano em cartaz. Solicitamos a locação para apenas uma segunda feira, já que o Arena estava ocupado naquela data. Conseguimos a data, e anunciamos que íamos " Abrir para Balanço".
Uma semana antes havíamos feito uma homenagem ao Zimbo Trio, no Teatro de Arena, no show"Zimbo  Concerto"  que foi um grande sucesso. O trio faria uma temporada no Peru e  México, em excursão  programada pelo Itamarati. Lembro-me bem, que para  um dos números que executavam, criamos uma iluminação que destacava o teclado do piano do Hamilton Godoi, os dedos de Luiz Chaves nas cordas de seu contrabaixo e,  num efeito bem legal, colocamos um foco de luz nos pratos da bateria de Rubens Barsoti durante seu solo.  
Queríamos, Haya e eu, fazer algo também diferente e de impacto no show do TBC.
Surgiu a primeira idéia: porque não colocar  dois trios tocando juntos no mesmo palco?
A sugestão foi prontamente aprovada pela equipe de produção e pelo Jongo Trio (Cido Bianchi, Sabá e Toninho Pinheiro) e Sambalanço Trio (Cesar Camargo Mariano , Clayber e AirtoMoreira),  trios que faziam muito sucesso na época.
Completamos o elenco com Walter Santos, Maricene Costa, Pery Ribeiro, Taiguara, Djalma Dias, Marisa, Carlos Castilho e Vera Brasil.
Quanto ao roteiro musical, queríamos músicas novas, alguns lançamentos, o que deixou o elenco bastante satisfeito. Marisa cantou além de seus sucessos, duas músicas novas de GeraldoVandré, acompanhada pelo Jongo Trio e o excelente violão de Carlos Castilho. Este, por sua vez, mostrou um lindo arranjo de "Carinhoso ". Walter Santos apresentou na ocasião alguns temas novos e Vera Brasil acompanhada do Jongo Trio levantou a plateia com "Vai João", um de seus maiores sucessos. O mesmo aconteceu com Djalma Dias, sambista que nos foi apresentado por Jair Rodrigues, o novato Taiguara e Pery Ribeiro.
Tudo corria as mil maravilhas. Som perfeito. Iluminação precisa. Os dois trios, durante todo o show no palco, se revezando nos acompanhamentos e em seus solos, executando seus sucessos. 
O público vibrava satisfeito, até que a surpresa que havíamos preparado para o gran-finale, fez a platéia explodir : Jongo e Sambalanço Trio tocam juntos, com improvisos e malabarismos musicais jamais visto até então em um palco de Bossa Nova! Pelos aplausos recebidos ao final do show, e pelo sorriso estampado no rosto do elenco, percebemos que haviamos alcançado nosso objetivo .
Até a proxima segunda feira

Nas fotos acima, Cesar Camargo Mariano , Sabá e Vera Brasil


segunda-feira, 23 de março de 2009

1966/Juão Sebastião Bar



Juão Sebastião Bar, na época de propriedade do jornalista Paulo Cotrim, era o templo da Bossa Nova em São Paulo. Por ali desfilaram grandes astros paulista da música brasileira, e os cariocas importados do "Beco das Garrafas", reduto do movimento no Rio de Janeiro. Na Major Sertório, alem do "Juão", tinha o "Ela Cravo e Canela ", por onde passaram Claudete Soares, Theo de Barros,Vera Brasil, Hermeto Pascoal, Taiguara, e muitos outros. A casa, de propriedade de um certo Petri, dava muita chance para os novatos.
Para completar, a rua abrigava  o La Licorne conhecida por suas lindas e charmosas mulheres, de vida mais ou menos difícil,capitaneadas pela famosa Laura. 
Por um  tempo, a Galeria Metrópolis, também teve "O  Jogral " do Luiz Carlos Paraná e um barzinho muito interessante, onde só se ouvia Bossa Nova, chamado "Aquela Rosa Amarela " que, por incrível que pareça, era de propriedade do locutor esportivo Silvio Luiz, que mais tarde, casou-se com a extraordinária cantora Márcia. 
Mas, voltando ao "Juão", aquele lugar espremidinho, foi ponto dos grandes da Bossa. Johnny Alf,Cesar Camargo Mariano, Marisa , Elis Regina, Zimbo e os "bicos", como eram chamados pelos músicos profissionais, aqueles que na realidade queriam mesmo, era aparecer. Um destes personagens, conhecida por Teca, nos primeiros acordes subia em uma plataforma, que existia em cima de um pequeno palco, e se punha a dançar como se fosse uma coreografia do Lennie Dale ou da Bety Faria.
O segundo andar, com visão um pouco prejudicada para o palco, era dedicado aos que, além de ouvir música,  queriam curtir um bate papo. 
E foi ali, naquele templo da Bossa Nova paulista que participei da produção do mais inusitado espetáculo de minha vida . Um "happening".
O "happening "era uma manifestação artística tendo como base música aleatória e poesia concreta, que reunia artistas de diversos segmentos em uma performance criada na hora, sem roteiros nem scripts.
Já tinha assistido algo parecido, mas na rua, quando morei em New York.
Propus ao amigo  Blota Neto  novo dono do Juão, que queria dar um "up "na casa, fazer algo diferente e ele topou.
Falei com meu irmão, o maestro Sandino Hohagen que gostou da ideia e junto com seus colegas também maestros Rogério Duprat, Damiano Cozzela e o poeta  Decio Pignatari, comandaram a maior loucura que lá se viu. Vários alunos de música do Rogerio e do Cozzela  foram convidados e se integraram ao quarteto.
Decio lia suas poesias concretas, uma vitrola tocava hinos patrióticos, Sandino regia a "nona sinfonia"de Beethoven apenas lendo a partitura, sem música..
O público começou a se entusiasmar e a interagir. De repente, vai ao palco um rapaz fazendo um discurso inflamado em alemão, Rogerio Duprat com um penico na mão fazia coleta de doações e depois jogava as moedas para o público. A imprensa, que dava ampla cobertura ao evento, também aderiu e no dia seguinte, 10/05/66 o Jornal da Tarde, a Folha de São Paulo, Última Hora e Notícias Populares, publicavam  com destaque aquela "explosão criativa".
Na parede de fundo do palco um imenso out-door da propaganda do famoso xarope São João, com a célebre frase do sujeito ameaçado de mordaça: "Largue-me. Deixe-me Gritar "

segunda-feira, 16 de março de 2009

1977/Dick Farney


 

Durante um período de minha vida profissional, em que tinha como atividade principal uma assessoria de imprensa, trabalhei com restaurantes, casas noturnas, boates, gravadoras, artistas, cirurgiões plásticos, emissoras de rádio, Rede Ferroviária Federal, enfim, não podia escolher clientes e tinha a obrigação de ser versátil e criativo, para atendê-los bem.

Muitos dos profissionais, que naquela época estiveram comigo como estagiários, hoje, com muita satisfação, os vejo como editores, colunistas, enfim bem sucedidos em suas profissões.

Alguns desses clientes faziam questão de serem atendidos pessoalmente por mim ou pelo Haya, meu irmão e sócio. Outros, nós é que fazíamos questão de atendê-los. Por exemplo, a Rede Ferroviária Federal, cliente que nos foi indicado pelo amigo Samir Razuk,  na época  superintendente comercial da rede Bandeirantes de Rádio, também nossa cliente, era atendida pela saudosa jornalista Gisela Bisordi.Era um trabalho bem difícil, mas não para ela, muito competente e paciente.

Restaurantes, geralmente, queriam nos ver na casa com freqüência, almoçando ou jantando. O mesmo acontecia com as casas noturnas, que só nos interessava freqüentar, quando tinham atrações musicais do nosso gosto.

Na Rua Santa Izabel, nessa época, tínhamos um cliente,  uma “boate” (o que hoje não existe mais naqueles moldes) chamada “Chez Regine”. Essas casas começavam a funcionar perto da meia noite e eram reduto de boêmios endinheirados e refúgio de amantes. Tinham um ambiente bem escuro, e a maioria era dominada por uns 3 ou 4 empresários da noite, muitos deles “laranjas”. Uísque falsificado era o que rolava solto e a maioria não servia comida. Uns amendoins, pipocas e olhe lá. A única coisa de honesta que essas casas tinham, era a música. Ah isso sim! Sorte minha, lá no “Chez Regine”, estava contratado Dick Farney que, com  Sabá no contrabaixo e o Toninho Pinheiro na bateria compunham um trio.

Sabá e Toninho, já  conhecia do Jongo Trio, do Dick era fã de carteirinha, mas nunca o tinha visto pessoalmente. Conhecia muitas histórias a respeito de sua carreira, e apreciava muito seu repertório e  estilo. Quando tocava jazz ao piano, lembrava bastante o som de Dave Brubeck, cantando, lembrava Sinatra. Sua voz romântica dava um tempero especial a interpretações de “Alguém como Tu “e “Copacabana”.

Dick nasceu Farnésio Dutra da Silva, e seu pai era músico e dono de um laboratório no Rio de Janeiro, que fabricava a famosa “Matricária”, pozinho que as mães passavam, e até hoje passam, nas gengivas de seus bebês para aliviar as dores causadas pelo nascimento dos dentes. Os primeiros contatos com a música recebeu de seu pai. Contavam seus amigos, que Dick, tinha “ouvido absoluto”, ou seja, reconhecia notas musicais e tonalidades em qualquer ruído. Uma das histórias que se conta sobre ele, é que quando aprontava alguma arte e seu pai o reprimia com algumas cintadas,  gritava em que tom apanhava...

Quando, por causa de meu trabalho, minhas idas ficaram mais freqüentes ao Chez Regine, passamos a conversar mais e nos tornarmos mais íntimos. Percebemos então, que tínhamos pontos em comum: nosso gosto musical, era praticamente o mesmo, éramos divorciados, estávamos no segundo casamento e amávamos nossas atuais esposas. Cheguei a presenteá-lo com um LP de Bill Evans, aonde ele toca “I Love My Wife”. Ele adorou e incluiu a música em seu repertório. Mas o que ele mais gostava de comentar,  era o dia que terminaria sua obrigação de pagar pensão para a ex. Dizia-me que tinha um mural em sua casa, lá na represa de Eldorado, no formato de calendário, em que passava um x em cada dia que acabava. Fazia  com gosto!

Guardo boas recordações do Dick... Quando fizemos o dono do restaurante Antonio’s comprar um piano decente, já que queria te-lo abrilhantando seu jantar, de um show que fez para alta sociedade de Araraquara e que foi durante muito tempo comentado na cidade, e um aniversário seu, no qual fiz–lhe uma surpresa, trazendo o excelente saxofonista argentino radicado no Brasil e que fez parte de seu quarteto, Hector Costita. Combinamos com Sabá e Toninho e com o próprio Costita . A um sinal meu, Sabá  sugeriu que tocassem Tangerine, um de seus números preferidos. Aos primeiros acordes, Costita entrou pela “boate” adentro, e ficaram pelo menos 1 hora improvisando, no mais puro jazz. Ao final, ovacionados, puxamos o côro de “parabéns a você”.

Foi muito bom!. Pena que Dick tenha partido tão prematuramente. Tinha apenas 65 anos!

domingo, 8 de março de 2009

1964/Bossa de Bolso


Esse foi o nome que os estudantes secundaristas do Colégio Rio Branco, deram a um show, que nos encomendaram nesse ano. As faculdades promoviam grandes shows, em função das verbas, que seus centros acadêmicos possuíam, e também porque seus alunos estavam fortemente engajados não só no movimento da bossa nova, mas  também naqueles que repudiavam a ditadura militar. Daí a vontade de manifestação, e nada melhor, que unir  música ao protesto, o que era feito por todos os cantos deste planeta.

Os secundaristas não estavam alheios ao que se passava. Fomos procurados por um grupo, quando estávamos no Teatro de Arena. Lembro-me que um deles, tinha o sobrenome Leal, o outro Cunha Bueno, e um terceiro, Freitas. Achei a principio um pouco audacioso o projeto, pois queriam um show com artistas de nome e se comprometiam a entregar todos os cachês no camarim, antes do espetáculo começar.

Sugeri Cesar Camargo Mariano, que acabara de desfazer seu Sambalanço Trio, pois o bateirista Ayrto Moreira fora acompanhar Flora Purim. Assim, Toninho Pinheiro o substituiu e  Cleiber assumiu o contrabaixo. O show contou ainda com o Bossa Jazz Trio (cujo líder era Amilson Godoy),  Carlos Castilho, Ana Lucia, Tuca e Taiguara.

Os organizadores fizeram questão de incluir dois estudantes no elenco. Fizemos uma previa audição e como não comprometeriam o show , deixamos que cada um apresentasse um número, para delírio da platéia formada na maioria  por seus colegas.

O que os estudantes do Rio Branco não imaginavam

, é que eu estava fazendo contato com um conjunto vocal que era, como ainda é, o meu preferido e que seria a atração maior daquele “Bossa de Bolso” - o quarteto vocal  ”Os Cariocas”.

Conversei durante dias com Severino Filho, para que pudesse conseguir uma data disponível  para nosso show. Quando  recebi a confirmação e dei a notícia à rapaziada, ficaram muito empolgados, pois tratava-se realmente de uma grande atração.

Sempre me identifiquei musicalmente com o som de conjuntos vocais. Ouvia muito “The Ink Spots “, “ The Mills Brothers” e outros, mas tinha um em particular que gostava muito - o “The Hi-Lo’s, em quem “Os Cariocas “se inspiraram.

A primeira voz sempre cantada em falsete  e que era a especialidade do Severino, líder, arranjador  e idealizador do quarteto, era sua marca registrada.

Naquela noite quando o quarteto entrou cantando “Samba do Avião” a platéia delirou, e confesso, foi um dos momentos mais emocionantes, que vivi durante a época em que trabalhei como produtor de shows de bossa nova. Naquele momento, deixei o lado profissional e assumi o de fã. Vibrei junto com a platéia.

 

                                                                                                                

sábado, 28 de fevereiro de 2009

1959/Sammy Davis Jr.


Uns dois anos antes de viajar para New York, um de meus programas prediletos, era garimpar discos de música americana em lojas da região da Av. São João. Eram muitas, e no bairro onde eu morava, não existia nenhuma. Saía de Santa Terezinha, zona norte, no ônibus da linha 44, que pegava ao lado da banca do jornaleiro Piolim, e depois de 30 a 40 minutos descia no  ponto final, que ficava na Av. Casper Líbero, bem em frente ao prédio do jornal e rádio Gazeta. Seguia pela Av.Ipiranga, e logo estava no meu paraíso. Alí fui apresentado a Errol Garner, Mahalia Jackson, Billie Holliday, Louis Armstrong, Count Basie, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Billy Eckstine, Cannonbal Adderley, Sammy Davis Jr, e muitos outros, que passaram a fazer parte do meu dia a dia até hoje.

Quando em 1957 fui para New York, por imposição de meu pai tive que deixar todo o meu garimpo por aqui. Dizia o meu querido “velho”, que lá teria material suficiente, para suprir o que deixara. Meu irmão Haya cuidaria de meu acervo, como, aliás, cuidou muito bem. Mas, alguns LPs, fiz questão de esconder no fundo da mala de viagem, por via das dúvidas.

Um desses tesouros que levei, foi um disco LP intitulado “Starring Sammy Davis Jr.” da gravadora Decca Records. Nele, Sammy cantava, sapateava e imitava alguns cantores e atores cantando. Na faixa que interpreta “Because of you”, ele iniciava  dizendo “actually actors wanna be singers and singers wanna be actors”. Aí, imitava James Cagney, John Wayne, Gary Cooper, Peter Lorre, James Stewart, todos cantando ou fazendo de conta…Imitava também com perfeição  Billy Eckstine, Nat K. Cole, Tonny Bennett, Mel Tormé, Matt Monro e Louis Armstrong.

A faixa que mais gostava era “Hey There”.Consegui repor esse LP várias vezes, até tê-lo hoje, em meu arquivo do ITunes, junto com outras pérolas, como”Don’t Blame me”,”Dedicated to You”,”Laura”,”The Birth of the Blues” e outras.

Quando morei na casa de Nicolas Silfa, exilado político dirigente do Partido Revolucionário Dominicano, e companheiro do militante peruano e dirigente aprista Guillermo Hohagen, meu saudoso pai (se não me engano na rua 92), fiquei sabendo que era vizinho do  famoso Apolo Theater.

Tinha ouvido histórias incríveis daquele lugar, que revelou  nomes como Ella Fitzgerald, Mahalia Jackson e muitos outros cantores e instrumentistas em suas famosas tardes de shows de “novos talentos”, uma espécie de programa de calouros. Claro, fiquei ansioso por conhecer aquele verdadeiro templo do jazz, spirituals e da música norte americana.

Certa manhã de sábado, peguei um subway e fui visitar o Harlem, que ainda não conhecia. Nunca nos meus 20 anos de idade, tinha visto algo semelhante e que me chamava muito a atenção. Nas bancas de jornal, estavam expostas revistas Ebony com lindas mulheres negras na capa, os outdoors, lembro-me bem das propagandas da Kodak, com bebês negros e as lojas de brinquedos  com bonecas negras.Era a América racista, que me estava sendo apresentada.

Enfim, cheguei ao meu destino, que era o Apolo Theater. Não pude acreditar no que via. Em seus letreiros luminosos o anúncio “Tonite Sammy Davis Jr. Show”. Não hesitei. Aquele seria meu programa de sábado.

A noite tentei convencer o amigo Silfa e sua querida companheira Lucy a me acompanharem, mas sem sucesso. Fui sozinho.

A primeira parte do show ficara por conta do ex-boxeador Sugar Ray Robinson, que tentava carreira no show business. Cantou, dançou apresentou alguns convidados, mas não convenceu. Sua carreira artística, ao contrário da de boxeador, foi bem curta. Encantou os amantes desse esporte. Suas lutas contra  Carmen Basílio pelo título mundial, foram fantásticas. Era elegante e técnico.

Mas ai chegou a hora daquele negrinho feio, caolho e baixinho entrar no palco, e se transformar em um negro lindo e imenso, que tomou conta da platéia extasiada.

Confesso que a emoção me dominou por várias vezes durante o show. Seu sapateado, sua voz potente, e sua versatilidade - tocou trompete e bateria, fizeram o público delirar.

Em um momento do show, em que imitava Louis Armstrong, usava um lenço, como o velho Satchmo fazia. Após o número, lança o lenço  para a platéia. Lamentei não estar na fila do gargarejo, meus dólares chegavam só pra galeria.

Fiquei no meu lugar após o término do show. O teatro se esvazia e lota a seguir. Começa a próxima sessão.

Impressionante! Tudo exatamente igual! O mesmo timing! E o lenço de novo atirado para a platéia... e eu na galeria, mas feliz por assistir o maior show-man de todos os tempos.

Sammy Davis foi o primeiro negro a ter um programa próprio na TV americana.

Faleceu em 1990 aos 64 anos de idade, em decorrência de um câncer na laringe, causado pelo cigarro, o principal partner nas suas apresentações.