segunda-feira, 25 de maio de 2009

1958/Las Mulatas de Fuego


Da janela de meu apartamento, localizado na Broadway esquina com a Rua 76 em Manhattan, podia observar muitas coisas interessantes. A cidade com todo o seu charme me fascinava. Queria tomar contato com tudo. Meus olhos não paravam na busca pelo “algo novo”. Quando não estava caminhando no entorno do prédio onde morava, passava um bom tempo grudado nas grandes vidraças das janelas de minha sala, no décimo andar, observando as pessoas lá embaixo. Eram tipos diferentes, estranhos, que me chamavam a atenção. Mulheres passeando com seus animais de estimação, gente vestida com roupas diferentes, tipos estranhos para mim. No canteiro central da avenida, os bancos serviam de descanso para os mais idosos, casais de namorados ou mesmo para solitários encapotados, esses quase sempre, consumindo algum tipo de bebida, na tentativa de afastar o frio ou quem sabe a solidão, um comportamento comum, como constatei no decorrer de minha estada.

A noite a paisagem era diferente. Eram visto grupos de jovens conversando, bebendo, cantando, fazendo algazarras.

Da janela do quarto, o cenário era diferente. Ficava do outro lado do bloco do prédio e, vez por outra, flagrava cenas inusitadas. Briga de casais, adestramento de animais, estudos de músicos, bailarinas ensaiando coreografias e curiosamente para mim, muitos moradores idosos e pouquíssimas crianças.

Lembro-me de uma senhora de idade bastante avançada que, invariavelmente, abria a persiana de seu apartamento por volta das 9 horas da manhã, já vestida, sempre usando luvas e chapéu. Saia, e só voltava no final da tarde. Vim, a saber, mais tarde, que aquela senhora, que já devia beirar os setenta anos, saia para o trabalho. Era telefonista de um hotel nas proximidades.

Mas o bloco ao lado nos oferecia também imagens generosas.

Numa destas ocasiões, flagrei um grupo de moças, que ensaiava uma coreografia de ballet no apartamento bem em frente ao meu. Fiquei um bom tempo a observar aqueles movimentos perfeitamente sincronizados. Estava impressionado. Torcia para que os ensaios se repetissem, com as persianas abertas, para que pudesse assistir a aquele show.

Um dia, recebendo uns amigos para uma sopa, fomos brindados com um ensaio do grupo. Chamei-os até a janela e puderam durante alguns minutos observar. As moças, quando perceberam a platéia, fecharam as persianas e acabaram com nossa alegria. Tudo de maneira bem simpática e cordial.

Desse grupo de amigos fazia parte um argentino, chamado Tony Ruiz, que trabalhava como “mestre de cerimônias”nos shows latinos identificou as bailarinas pela coreografia, como sendo do corpo de baile do Radio City Music Hall, ou seja, eram algumas das famosas Rockettes.

Tony era bem o tipo do argentino “charlador”.Vestia-se impecavelmente, penteava-se usando toda a “gomalina” disponível e, com um inglês horrível, conseguia se comunicar e tinha muitos amigos. Era esperto. Não tinha residência fixa. Morava em hotel barato. Chegava de mansinho e, quando a gente, percebia estava morando na sua casa.

Fui a alguns shows que ele apresentou com grupos venezuelanos, porto-riquenhos e cubanos. Saia-se muito bem. Sempre ao final dos shows, juntava-se ao elenco, para comemorar o sucesso, em algum restaurante ou casa noturna. Claro que sem convite algum, aliás, várias vezes fui incluído no pacote, e eu sempre aceitei. Era muito bom. Num destes espetáculos, apresentou um show com elenco de porto-riquenhos, que tinha um “cover”do famoso comediante mexicano Cantinflas e um cantor chamado “El Jibarito”, o qual, me confidenciou ser anunciado como um ídolo mirim, quando, na verdade, já havia completado 25 anos, mas para a platéia, facilmente passava por um adolescente . Tinha a cara de menino, e lógico, não se misturava ao elenco que saia para a noite após os shows, para não levantar nenhuma suspeita. Podia cruzar com algum espectador.

Nessa época ouvia-se muita música hispânica na América. Os discos de Perez Prado, Xavier Cugat, Tito Puente, Sonora Matancera e outros, eram disputados nas lojas de Manhattan. O mercado era grande, e em vista disso, os shows com elenco latino para esse público, eram comuns. Era o “ganha pão” de Tony.

Já fazia uns quinze dias que não tinha notícia do argentino, quando me apareceu em casa, acompanhado de uma mulata estonteante, duas vezes o tamanho dele - “ Carioca, vamos ter um show sensacional com um pessoal de Cuba, que aliás já está hospedado aqui no hotel ao lado, e gostaria que você me ajudasse a fazer companhia as dançarinas, que querem conhecer o Times Square”, e me piscou o olho. Estranhei aquele convite, mas era impossível de ser recusado. Comecei a desenvolver uma conversa com Anita, a simpática cubana, que gostou quando lhe disse que meu pai havia homenageado o poeta cubano Jose Marti, colocando em minha certidão de nascimento, como “middle name”, o nome do poeta. Aquilo a deixou espantada e, quando me dei conta, já eram três as cubanas comigo, desfilando . Claro que aquela cena não chamou a atenção de ninguém, a não ser a minha. Tony o argentino virou meu ídolo! E se aproveitou disso, passando uma temporada sem pagar hotel, hospedado em minha casa.

Meu apartamento, virou refúgio das cubanas, aonde tomávamos Rhum , comíamos batatas chips e tínhamos longas conversas sobre samba, bolero, mambo e cha cha cha. Tudo longe do carrancudo empresário, que as controlava. Mas só as três, o resto do grupo só vim a conhecer no dia em que se apresentaram.

Grandes estrelas faziam parte do grupo. A mais famosa, a cantora Célia Cruz.

Era um grupo grande e antigo, as célebres “Mulatas de Fuego”. Nas conversas muito agradáveis que tive com elas, fiquei sabendo de sua história. Começaram em 1947 no famoso cabaré Tropicana , tiveram varias formações, sempre com seis bailarinas, três cantoras e uma banda. Fizeram vários filmes, viajaram muito pela América e muitas delas se casaram durante as turnês. Deixaram saudades.

No vídeo as Mulatas de Fuego com a orquestra Sonora Matancera e a cantora Célia Cruz.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

1980/Frank Sinatra


Roberto Medina, herdeiro de Abrahan Medina, grande empresário do ramo de eletrodomésticos, dono da rede Rei da Voz no Estado do Rio de Janeiro e Harmônicas Scandali, sempre foi muito precoce. Aos dezoito anos era superintendente da Midas Propaganda e aos dezenove,  vice presidente da rede Rei da Voz. Ingressou na Art Plan Publicidade, house agency do grupo imobiliário Veplan em 1969.

Em 1978 implantou a empresa Art Plan Empreendimentos. Ali realizou o que muitos empresários haviam tentado sem sucesso durante anos. Trouxe Frank Sinatra ao Brasil para um show memorável no Maracanã.

Ainda hoje, consta do Guiness Book of the Records, como o maior público já registrado em um show solo. Foram 150 mil pessoas.

Para se avaliar a enorme vontade dos brasileiros em receber “A Voz” em nossa terra, até brincadeiras de gosto duvidoso eram cometidas por meios de comunicação. Um destes fatos, aconteceu no começo dos anos 60.

A TV  Record anunciou a vinda do cantor, mostrando na divulgação uma silhueta com chapéu característico, que insinuava que aquele era Sinatra.

O show, marcado para a noite de 31 de março, entrou no ar, propositalmente atrasado, nos primeiros minutos do dia primeiro de abril, e quem adentrou ao palco, foi o cantor Decio Cardoso, um “ cover “do Sinatra. A  Record, sem nenhum escrúpulo, simplesmente confessou ser um “primeiro de abril”.

Mas voltando ao ano de 1980, o meio artístico simplesmente entrou em polvorosa, com a confirmação da vinda de Mr. Sinatra ao Brasil. Havia uma movimentação intensa, as

prateleiras das lojas de discos se prepararam e estavam recheadas com suas gravações.

Revistas publicaram reportagens, contando curiosidades sobre o cantor, os músicos da noite incluíram  os seus sucessos em seus repertórios. A Sinatromania tomava conta do país.Os fãs exultavam.

Acompanhei a carreira de Sinatra desde os  tempos em que ele era crooner. Conheço bem o seu repertório e, talvez por causa disso, não pudesse ficar distante do grande acontecimento de 2 de fevereiro de 1980.

Alguns fatos interessantes aconteceram. Certo dia fui procurado pelo cantor Decio Cardoso, aquele mesmo que cantava como Sinatra, que precisava de algumas músicas para um show que faria no Gallery, um “night club” fechado, comandado por José Vitor Oliva. A música que mais interessava a Decio era The Continental.

Enquanto isso, um grande agito acontecia na Rádio Capital, na época dirigida por Helio Ribeiro, outro fã confesso de Sinatra, que sabia dos meus conhecimentos, pois era comum, nos juntarmos para executar alguns de seus “hits”. Em nossos tempos de Radio Bandeirantes, nos refugiávamos em um estúdio, que tinha um belo piano, e fazíamos o nosso show particular. Ele cantando e eu acompanhando ao piano.

Por esta ocasião, além da assessoria de imprensa para a Rádio Capital, também assessorava Helio em algumas questões. E foi atendendo a sua solicitação, que colaborei

para colocar no ar um programa totalmente dedicado a Sinatra. José Maria Scacchetti foi o apresentador do programa. Elaborei o roteiro musical, ajudei com o texto e forneci os discos.

Helio fez questão que o programa tivesse a mesma duração do show, que lotou o Estádio do Maracanã. Qualquer tipo de transmissão durante a apresentação fora proibida, assim, mantínhamos um contato direto com nosso correspondente no Rio, que fora do ar  passava as informações, e estas eram repassadas aos ouvintes entremeando as músicas. O programa simultaneamente ao show terminou como o título de um dos maiores sucessos de Sinatra: “In the small hours of the morning”.

Para assistir performances de Sinatra ,acesse www.youtube.com.br e faça a pesquisa em seu nome.Como são videos protegidos não podemos exibi-los no blog.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

1966/Lima Duarte

 

O ano prometia ser dos mais animados em termos de trabalho. Estava na Record, na época líder de audiência, fazendo rádio e TV.

Na rádio, com um programa diário e um semanal, e na TV, dois programas semanais. Um com a apresentação de Henrique Lobo (Dois na Gangorra), aos sábados à tarde, como produtor executivo, e outro, nas noites de sexta feira, com Blota Jr, como membro de uma equipe de produção, que incluía meu irmão Haya Hohagen, Lemos Brito, José Guimarães, Manoel Carlos e Blota Neto, filho do apresentador.

O “Blota Jr Show”, marcou  época na televisão brasileira. Blota era um   entrevistador  elegante, simpático, culto, de perguntas inteligentes e de rápido raciocínio.

Formava com Sonia Ribeiro, sua mulher, o casal mais elegante da TV.

Tinham muitos admiradores, e eram muito queridos por seus companheiros de trabalho. 

Tive com Blota Jr uma convivência muito prazeirosa.

Mas em junho desse ano, numa medida de contenção de despesas, houve um corte de funcionários. Henrique Lobo e sua equipe foram dispensados e nós também.

Blota como sempre muito companheiro, prometeu nos ajudar no que fosse possível.

Estávamos em começo de carreira na TV. Haya recém casado.

Blota Jr, já nessa época, militava na política. Haveria eleições para Senado, Câmara Federal e Assembléia Legislativa. Ele era candidato.

A ARENA, partido do governo, pelo qual Blota disputaria a eleição, estava se estruturando para a campanha e seu presidente, o deputado federal Arnaldo Cerdeira, lhe pediu, por ser ele homem de comunicação, que indicasse alguém para organizar aquele setor. Imediatamente fomos indicados.

Tivemos uma longa reunião com o presidente Arnaldo Cerdeira e com o secretário geral do partido, Hamilton Prado, ocasião na qual, traçamos a estratégia da campanha para rádio e TV. 

Fizemos várias inovações, entre elas, um programa de entrevistas semanal, com o comando de Branca Ribeiro e Roberto Arruda na TV Excelsior, foi um verdadeiro sucesso, por fugir do esquema convencional dos programas políticos.

Branca Ribeiro sempre vestindo longo e Roberto de smoking, conduziam programa, focando o lado humano e pessoal do candidato. Não se falava em política.

Lá os candidatos falavam de poesia, contavam causos, mostravam suas aptidões artísticas, o que prendia o telespectador, num horário onde, o número de televisores desligados, era cada vez maior, pois, de um lado a ARENA, do outro o PMDB, se confrontavam com muita baixaria, e um verdadeiro festival de insultos.

Ao criar uma opção para apresentar os candidatos, conseguimos melhorar a audiência e, por que não dizer, torná-lo um sucesso.

Para o rádio, montamos na sede do partido,  um estúdio de gravação de áudio e um bureau de informações, comandado pelo diplomata, jornalista e historiador, José de Carvalho e Silva, meu querido avô, que se encarregava de levantar temas de interesse público para serem distribuidos aos candidatos. Gravávamos a fita, que era enviada às emissoras, para entrar nos horários reservados a campanha política.

Certa ocasião, Cerdeira nos chamou e pediu um material de impacto para por no ar no horário nobre. Queria um texto forte e alguém de fácil comunicação para interpretar. De preferência um ator.

Silas Roberg , redator, dramaturgo, foi o escolhido para redigir o texto. Procuramos Lima Duarte para gravar, mas ele se recusou. Não compactuava com o governo. Indicou-nos o excelente Percy Ayres, que também era um ator de interpretações de grande impacto. Chegamos a ensaiar o texto algumas vezes, mas as vésperas da gravação, que seria feita nos estúdios da TV Tupi, Percy foi acometido de uma crise renal e hospitalizado. Corremos para Lima Duarte, contando nosso o problema. Lima  olhou bem pra nós ,coçou a cabeça e disse : “Eu vou fazer! Preciso ajudar um cenógrafo da TV, que foi levado pelo pessoal do Dops e que tem mulher e filhos, que ficaram desamparados.Vou fazer por eles”

E fez.  E com que categoria!  Com que profissionalismo!

Ao final do trabalho  Cerdeira enalteceu bastante a peça elaborada por Lima Duarte, a quem creditou parte do sucesso, que foi a campanha.

O ator por seu lado ficou feliz por ajudar um amigo, naquele momento difícil, pelo qual passaram vários de seus colegas.

Recebemos muitos elogios e a gravação  foi muito comentada na época.

No vídeo uma homenagem a esse incrível ator.


 

 



 

 

  


segunda-feira, 27 de abril de 2009

1968/Ramos Calhelha


 

 

Eu chegava  ao prédio da rádio Tupi, quando avistei na Padaria Real, ponto de encontro do pessoal da emissora, o Helio Ribeiro, nosso diretor, que com um aceno me convidou para um cafezinho.

Estacionei meu Renault Dauphine, e fui ao seu encontro. Helio se mostrava  inquieto e nitidamente  ansioso. Ao me aproximar soltou a pergunta bem baixinho: “o que você acha de trazermos para a rádio o Ramos Calhelha? Eu de pronto respondi “e você acha que o dr. Edmundo Monteiro, na época superintendente dos Diários Associados, vai te liberar verba pra pagar o salário dele? Você acha que ele deixa os Estados Unidos, pra vir trabalhar aqui? “

Eu ia perguntando, e ele com um sorrisinho maroto esperava eu parar com a bateria de indagações, todas sem sentido para ele, para me dar a grande notícia.  

Me fez pagar o cafezinho, e me puxou para fora da padaria em direção ao décimo andar do prédio, onde ficava sua sala. Encostou a porta, ligou seu gravador Akai de rolo, se reclinou na  cadeira com os pés em cima da mesa, enquanto a voz de Ramos Calhelha anunciava um monte de músicas. Chamou Magno Salerno e o Valdir Santos, que eram uma espécie de diretores musicais da Radio Tupi, e exibiu seu troféu.

Helio havia feito um acordo com o pessoal da Varig. Ele enviava a fita virgem com um texto elaborado por Valdir e Magno para Calhelha nos Estados Unido, e lá o locutor gravava o texto e mandava a fita de volta.

Ramos Calhelha era um ícone. Era a voz da Metro, dos jornais da tela, enfim era um profissional cobiçado, mas de certa forma, difícil de ter. Não para Helio Ribeiro.

Ele queria e arrumou a maneira de realizar seu projeto.

A primeira fita do programa, que ia lançar uma parada de sucessos, na espetacular voz de Calhelha, havia chegado. Agora, era só fazer a montagem e colocar no ar.

Helio tinha uns rompantes de criatividade e, enquanto não via a coisa finalizada, ficava inquieto. Não falava no assunto em público.  Apenas com as pessoas envolvidas ou com as mais chegadas, com quem apenas cochichava. Tinha um histórico de idéias copiadas e aproveitadas por pessoas inescrupulosas, que o chateava bastante.

Enfim afinou o projeto, e colocou no ar sua “ parada de sucessos “ com a apresentação de Ramos Calhelha. Foi um estouro!

Tempos depois quando Helio dirigiu a Rádio Capital, concretizou por completo a sua vontade, e trouxe o locutor de volta ao Brasil para trabalhar com ele.

Tive o prazer de desenvolver um projeto para a Radiobrás, com a locução do Calhelha  e a redação do jornalista Teixeira Veloso.

Gravamos vários pilotos. Todos impecáveis. O projeto serviria para transmitir programas para brasileiros residentes no exterior. Infelizmente por problemas políticos, não vingou.

Calhelha nos deixou em 2002. Vivia, já há alguns anos numa chácara em Águas de Lindóia, onde fora viver com sua família.

Só para matar a saudade, ou para os mais jovens, conhecer um ícone da radiodifusão, vale a pena ouvir a narrativa de Ramos Calhelha, nesse texto de Richard Bach, “Jonathan Gaivota .”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 20 de abril de 2009

1965/Boite Oasis


Ficava na Rua 7 de abril, em um “basement”do cine Coral, e era um dos pontos mais procurados pelos boêmios e turistas, que visitavam São Paulo.

A comida era muito boa, mas os “pockets shows” eram a atração maior. Naquele espaço apertadinho, muitas estrelas se apresentaram,  e tivemos o privilégio de participar de algumas dessas performances.

O horário dos shows era os dos verdadeiros boêmios. Invariavelmente começavam após a meia noite. Não era nada confortável para meu irmão Haya e eu, mas tinham lá as suas recompensas, como usufruir daquela comida maravilhosa, que nos era servida, como se fôssemos os melhores clientes da casa.

O primeiro show que dirigimos na Oasis, foi com o Zimbo Trio e Ellis Regina, no auge de sua carreira. Tinham chegado de uma turnê de muito sucesso pelo Peru e Argentina, e o Zimbo havia ganho o Troféu Roquete Pinto de melhor conjunto instrumental.

Fomos  procurados na Rádio Piratininga, onde produzíamos e apresentávamos o programa “Bossa à Noite “, por Roberto, um funcionário de Marcos Lazaro, empresário da cantora, que solicitava nossos serviços para a iluminação e direção de cena do show, que marcaria uma temporada do pessoal na boite.

Achamos a proposta financeira muito baixa e nos recusamos a fazer o trabalho.

Nossa contraproposta foi recusada. Mas no dia seguinte, eis que o emissário de Marcos Lazaro volta a nos procurar, o Zimbo e Ellis, impuseram nossos nomes para  execução daquele trabalho.

Foi uma temporada que deixou boas recordações. Zimbo em grande fase e Ellis, a sensação do momento, vibrando muito com a iluminação que criamos, pois destacava  os movimentos que eram uma marca registrada, das suas interpretações.

Nos bastidores, enquanto aguardávamos o horário de entrar em cena, as conversas sempre agradáveis com o Luiz Chaves, e a paquera com a crooner do conjunto, que fazia a música da casa.

Terminada essa temporada, fomos chamados para mais um trabalho na Oasis.

Dessa  vez, o show vinha do Rio e era uma adaptação da peça de Carlos Lyra e Vinícius de Morais, “Pobre Menina Rica”, e tinha no elenco Baden  Powell e Dulce Nunes, com direção de Ruy Guerra.

Baden , considerado nosso melhor violonista, já conhecíamos, mas nem com Dulce nem com Ruy, tivéramos tido oportunidade de trabalhar.

Ruy era observado pela ditadura em tudo o que fazia daí fazer algo paralelo a seus filmes e composições, como esses pockets shows.

Dulce era mulher de Benê Nunes, um pianista famoso, o preferido do presidente Juscelino, freqüentador da alta sociedade carioca, que  tinha o hábito de abrir as portas de seu luxuoso apartamento para a turma da bossa nova.

Mulher sensível, bonita  e de voz cândida, como a das primeiras intérpretes da bossa nova. Sua presença no palco era encantadora.

Nosso trabalho foi o de  executar a marcação de luz,  já concebida pelo diretor. Alguns palpites na iluminação foram dados, apenas em função das limitações do equipamento da casa.

O mais que fizemos  nesse show, foi admirar a música de Baden, a beleza e interpretação de Dulce Nunes, principalmente em ”Estrada Branca”, composição de Vinícius e Jobim, que Ruy Guerra introduziu no show.

 Infelizmente não tive  a companhia do Luiz Chaves  e nem o conjunto musical da casa tinha uma crooner...

Até a proxima segunda feira


domingo, 5 de abril de 2009

1958/Errol Garner

Durante minha estada em New York, conheci lugares aonde se ouvia   boa música e se assistia a bons shows, como no Radio City Music Hall, o Birdland e barzinhos do Greenwich Village, que eram os meus preferidos, e onde se concentravam os músicos da noite, para mostrar ao público e empresários seus talentos.

Chegava cedo, pedia uma coca cola e ficava horas ouvindo o mais puro jazz.

No Birdland, era comum assistir a orquestra de Count Basie com seu crooner  Joe Williams ou algum convidado como Sarah Vaughan, lugar espremidinho, mas incrivelmente mágico.

No tempo em que vivi na  rua 76 com Broadway, costumava ir a um barzinho chamado “Negrita’s, com um amigo filipino, de nome Andrés, que me fora apresentado por Luiz Carlos Piffero ,gaucho, que tinha um daqueles empregos fantasmas  num escritório comercial do governo brasileiro em New York, o IBC Instituto Brasileiro do Café.

Através desses amigos conheci depois o Tadeu Cvintal,  hoje, renomado oftalmologista, Murilo Melo Filho, jornalista e diretor da revista Manchete entre outros,  de quem ficaram as  lembranças de grandes noites de boemia. 

O “Negrita’s”, se não me engano, ficava na rua 45 com a Madison Avenue. Nossa chegada causava certo alvoroço, por nosso estilo brasileiro (éramos a maioria no grupo), e porque o resquício da era de Carmem Miranda ainda pairava no meio musical. Havia um respeito muito grande pela imagem da artista brasileira. Os americanos gostavam de samba, que eu arranhava um pouco no piano.

A primeira vez que fui a este bar, vi que o Andrés sussurrou algo ao ouvido da Negrita, dona e pianista da casa, que ao terminar seu turno musical,  anunciou que havia na casa, naquele momento, um pianista brasileiro. Confesso que já havia tomado umas duas ou mais doses de Johnny Walker, provavelmente, o maior estímulo para que, sem o menor pudor, me dirigisse àquele Baldwin e começasse a tocar, como se fosse um profissional da noite, o que,  definitivamente, não era. Fui empurrado ao palco logo após o anúncio, e só sai porque havia um turno a ser cumprido, e na América existia uma rigidez profissional, se entrasse alguém do sindicato, era complicação na certa.

Vez por outra, Negrita me via e pedia para dar “uma canja “. Ela sabia que a música brasileira agradava, eu também não podia reclamar, pois a caixinha que ficava em cima do piano, se enchia de dólares e Negrita dizia com um sorriso largo: “take it! “. Claro, eu não reclamava, e gastava tudo lá mesmo!

Negrita dividia a música da casa com um pianista negro como ela, e que tinha uma característica bem interessante. Seu estilo me lembrava Errol Garner, um dos meus pianistas preferidos, conhecido pela sua mão esquerda marcante. Só que ele havia adaptado o estilo de Garner a um problema físico, e eu não havia notado. Não tinha o movimento dos dedos da mão esquerda, mas colocava com precisão a mão nos acordes, bem ao estilo de Errol Garner.

Na primeira vez que o ouvi tocar e fui a ele apresentado, fiz um comentário infeliz, achando  que seria um elogio: “ Puxa você tem o estilo de Errol Garner “, ao que me respondeu fria e secamente ”Sorry ,este é o meu estilo “. Eu estava conhecendo o jeito “fino e educado” dos gringos.

Até a proxima segunda feira!



 

domingo, 29 de março de 2009

1965/Aberto para Balanço



A coluna de " show business, " que Moracy  do Val comandava no jornal "Notícias Populares" começava  assim, na edição daquela semana de abril de 1965: "Opinião generalizada de músicos e cronistas presentes anteontem no TBC: " Aberto para Balanço" foi, em termos musicais um dos melhores shows até hoje realizados em São Paulo".
E eles tinham razão! Fomos felizes a começar com a escolha do nome do show.
O TBC vinha de um sucesso estrondoso com a peça "Os Ossos do Barão"com Otelo Zeloni e grande elenco, e ficaria fechado para algumas manutenções necessárias, pois a peça estava a pelo menos um ano em cartaz. Solicitamos a locação para apenas uma segunda feira, já que o Arena estava ocupado naquela data. Conseguimos a data, e anunciamos que íamos " Abrir para Balanço".
Uma semana antes havíamos feito uma homenagem ao Zimbo Trio, no Teatro de Arena, no show"Zimbo  Concerto"  que foi um grande sucesso. O trio faria uma temporada no Peru e  México, em excursão  programada pelo Itamarati. Lembro-me bem, que para  um dos números que executavam, criamos uma iluminação que destacava o teclado do piano do Hamilton Godoi, os dedos de Luiz Chaves nas cordas de seu contrabaixo e,  num efeito bem legal, colocamos um foco de luz nos pratos da bateria de Rubens Barsoti durante seu solo.  
Queríamos, Haya e eu, fazer algo também diferente e de impacto no show do TBC.
Surgiu a primeira idéia: porque não colocar  dois trios tocando juntos no mesmo palco?
A sugestão foi prontamente aprovada pela equipe de produção e pelo Jongo Trio (Cido Bianchi, Sabá e Toninho Pinheiro) e Sambalanço Trio (Cesar Camargo Mariano , Clayber e AirtoMoreira),  trios que faziam muito sucesso na época.
Completamos o elenco com Walter Santos, Maricene Costa, Pery Ribeiro, Taiguara, Djalma Dias, Marisa, Carlos Castilho e Vera Brasil.
Quanto ao roteiro musical, queríamos músicas novas, alguns lançamentos, o que deixou o elenco bastante satisfeito. Marisa cantou além de seus sucessos, duas músicas novas de GeraldoVandré, acompanhada pelo Jongo Trio e o excelente violão de Carlos Castilho. Este, por sua vez, mostrou um lindo arranjo de "Carinhoso ". Walter Santos apresentou na ocasião alguns temas novos e Vera Brasil acompanhada do Jongo Trio levantou a plateia com "Vai João", um de seus maiores sucessos. O mesmo aconteceu com Djalma Dias, sambista que nos foi apresentado por Jair Rodrigues, o novato Taiguara e Pery Ribeiro.
Tudo corria as mil maravilhas. Som perfeito. Iluminação precisa. Os dois trios, durante todo o show no palco, se revezando nos acompanhamentos e em seus solos, executando seus sucessos. 
O público vibrava satisfeito, até que a surpresa que havíamos preparado para o gran-finale, fez a platéia explodir : Jongo e Sambalanço Trio tocam juntos, com improvisos e malabarismos musicais jamais visto até então em um palco de Bossa Nova! Pelos aplausos recebidos ao final do show, e pelo sorriso estampado no rosto do elenco, percebemos que haviamos alcançado nosso objetivo .
Até a proxima segunda feira

Nas fotos acima, Cesar Camargo Mariano , Sabá e Vera Brasil


segunda-feira, 23 de março de 2009

1966/Juão Sebastião Bar



Juão Sebastião Bar, na época de propriedade do jornalista Paulo Cotrim, era o templo da Bossa Nova em São Paulo. Por ali desfilaram grandes astros paulista da música brasileira, e os cariocas importados do "Beco das Garrafas", reduto do movimento no Rio de Janeiro. Na Major Sertório, alem do "Juão", tinha o "Ela Cravo e Canela ", por onde passaram Claudete Soares, Theo de Barros,Vera Brasil, Hermeto Pascoal, Taiguara, e muitos outros. A casa, de propriedade de um certo Petri, dava muita chance para os novatos.
Para completar, a rua abrigava  o La Licorne conhecida por suas lindas e charmosas mulheres, de vida mais ou menos difícil,capitaneadas pela famosa Laura. 
Por um  tempo, a Galeria Metrópolis, também teve "O  Jogral " do Luiz Carlos Paraná e um barzinho muito interessante, onde só se ouvia Bossa Nova, chamado "Aquela Rosa Amarela " que, por incrível que pareça, era de propriedade do locutor esportivo Silvio Luiz, que mais tarde, casou-se com a extraordinária cantora Márcia. 
Mas, voltando ao "Juão", aquele lugar espremidinho, foi ponto dos grandes da Bossa. Johnny Alf,Cesar Camargo Mariano, Marisa , Elis Regina, Zimbo e os "bicos", como eram chamados pelos músicos profissionais, aqueles que na realidade queriam mesmo, era aparecer. Um destes personagens, conhecida por Teca, nos primeiros acordes subia em uma plataforma, que existia em cima de um pequeno palco, e se punha a dançar como se fosse uma coreografia do Lennie Dale ou da Bety Faria.
O segundo andar, com visão um pouco prejudicada para o palco, era dedicado aos que, além de ouvir música,  queriam curtir um bate papo. 
E foi ali, naquele templo da Bossa Nova paulista que participei da produção do mais inusitado espetáculo de minha vida . Um "happening".
O "happening "era uma manifestação artística tendo como base música aleatória e poesia concreta, que reunia artistas de diversos segmentos em uma performance criada na hora, sem roteiros nem scripts.
Já tinha assistido algo parecido, mas na rua, quando morei em New York.
Propus ao amigo  Blota Neto  novo dono do Juão, que queria dar um "up "na casa, fazer algo diferente e ele topou.
Falei com meu irmão, o maestro Sandino Hohagen que gostou da ideia e junto com seus colegas também maestros Rogério Duprat, Damiano Cozzela e o poeta  Decio Pignatari, comandaram a maior loucura que lá se viu. Vários alunos de música do Rogerio e do Cozzela  foram convidados e se integraram ao quarteto.
Decio lia suas poesias concretas, uma vitrola tocava hinos patrióticos, Sandino regia a "nona sinfonia"de Beethoven apenas lendo a partitura, sem música..
O público começou a se entusiasmar e a interagir. De repente, vai ao palco um rapaz fazendo um discurso inflamado em alemão, Rogerio Duprat com um penico na mão fazia coleta de doações e depois jogava as moedas para o público. A imprensa, que dava ampla cobertura ao evento, também aderiu e no dia seguinte, 10/05/66 o Jornal da Tarde, a Folha de São Paulo, Última Hora e Notícias Populares, publicavam  com destaque aquela "explosão criativa".
Na parede de fundo do palco um imenso out-door da propaganda do famoso xarope São João, com a célebre frase do sujeito ameaçado de mordaça: "Largue-me. Deixe-me Gritar "