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domingo, 1 de novembro de 2009

1967/Justiça de Salomão


Foi na inauguração da TV Bandeirantes que o programa “Justiça de Salomão”entrou no ar sob o comando de Salomão Esper. Na produção do programa feras como Alvaro Moya, Rebello Jr., Clodoaldo José, Nicéias e Haya Hohagen. Direção de tv de Ivan Magalhães e os câmeras Pedro Umberto, Alan Kardec e o saudoso Botini.

Conhecemos Salomão durante a campanha eleitoral realizada em 1966, quando Haya e eu fomos responsáveis pelo setor de rádio e tv da ARENA partido do governo. Foi por causa de seu pequeno, mas eficiente “estúdio”, que ficava nos porões da Rádio América, na rua da Consolação esquina com av. Ipiranga, aonde hoje está o Edificio Zarvos. Lá eram gravados e copiados spots e material de candidatos, que eram enviados para outras cidades. Foi o amigo Berto Filho, locutor dos mais requisitados na época, quem nos indicou o “Publisol”, nome do estudio que tinha como sócios Salomão e o espanhol José Velazco. Acabada a campanha eleitoral, ficou a amizade.

Durante o período em que o programa ficou no ar, houve uma convivência grande de Haya com Salomão. Além das conversas diárias, todas as terças feiras, dia do programa, Haya almoçava na casa de Salomão. Era quando discutiam e acertavam detalhes do programa. Sempre após o almoço, Salomão pedia licença, e subia para seu quarto fazer a sua “siesta”. Haya o aguardava, enquanto finalizava o roteiro do programa. A essa altura, Haya dirigia sozinho o “Justiça”.

O programa estava entre os melhores de entrevistas da televisão. Salomão no comando, mostrava muita competência e preparo. Algumas entrevistas ficaram famosas, como a que fez com o superintendente do Hospital das Clinicas de São Paulo, por ocasião do primeiro enxerto de mão feito no Brasil; a entrevista com Moraes Sarmento, na época a maior audiência do rádio paulista, que comoveu os espectadores; a com Blota Jr, que comentou fatos pitorescos de sua carreira; além de muitos políticos, gente do povo como o jogador de sinuca “Carne Frita”, curiosidades como representantes de associações de inventores e de mágicos, enfim enquanto durou foi um sucesso.

Salomão sempre tratou seus entrevistados com a mesma importância, afinal, eram eles as estrelas de seu programa. As perguntas eram sempre as que, com certeza, o telespectador faria.

Na Bandeirantes sempre teve o respeito do “seu João”, que o convocava toda vez que uma autoridade visitava a emissora. Era o mestre de cerimônia de todas as ocasiões.

Hoje aos 80 anos, ao lado de Joelmir Betting e José Paulo de Andrade, participa do Jornal da Bandeirantes Gente das 8 às 10 da manhã, com intervenções brilhantes, que são verdadeiras aulas.

Chega todos os dias bem cedo na emissora com sua pilha de jornais debaixo do braço e sua sacolinha contendo bananas e biscoitos de povilho. Continua a ser o mesmo “Saloma” bem humorado, de bem com a vida e a disposição dos amigos.

Tivemos, Haya e eu o prazer de, junto com nossas esposas, sermos convidados a participar da homenagem que os filhos, Sergio, Márcia e Ana Ligia fizeram ao querido Salomão.

Um almoço cheio de emoção, onde muitos compareceram para o abraço de parabéns ao querido amigo, confirmando a simpatia e bom humor, tão característicos da personalidade de quem soube chegar a maturidade sem perder o brilho e o encanto da juventude.

Aliás, neste almoço, fez questão de dar uma canja, e fazendo dueto com Nelson Gonçalves, cantou o samba onde nos confirma sua filosofia de vida, rica de amigos, cheia de simplicidade e de sabedoria: ”mas depois que o tempo passar, sem que ninguém vai se lembrar que fui embora,por isso é que eu canto assim, se alguem quiser fazer por mim, que faça agora”.

Na foto acima,em primeiro plano Haya Hohagen e ao fundo Salomão Esper conversa com Blota Jr. momentos antes de "Justiça de Salomão entrar no ar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

1967/Roberto Isnard


Durante o período em que trabalhei na Ultragaz, fiz alguns amigos, muitos em função de minha atividade. Lidava com pessoal de imprensa e publicidade. Ora estava dentro de um estúdio acompanhando a gravação de “spots e jingles”, ora em estúdio de tv, verificando se os cenários do “Ultranotícias” estavam em ordem. Não faltavam também os encontros com o pessoal de imprensa, já que não raro, aconteciam explosões de botijões de gás e, como nosso superintendente era também presidente da Associgás, eu era convocado para organizar coletivas onde ele dava as explicações sobre os acidentes, que eram provocados por produtos adquiridos em depósitos clandestinos.

Na época havia uma forte concorrência entre a Ultragáz e a Liquigáz. Era uma verdadeira guerra entre elas e as concorrentes nanicas, bem ao estilo da guerra dos refrigerantes existente entre Coca Cola/ Pepsi Cola e as “Tubainas”.

A briga pelo mercado do gás engarrafado era muito grande. A Ultragáz levava vantagem, pois além de distribuir o produto, tinha uma grande rede de lojas pelo interior, que vendia eletrodomésticos, sendo o fogão a gás o seu principal produto além dos botijões, claro.

Peri Igel era o presidente da Ultragáz e tinha um colaborador bastante conhecido da imprensa. Era o radioamador Roberto Isnard. Ele tinha funções de relações públicas e era muito querido pelos companheiros de trabalho. Já tinha ouvido falar em Roberto Isnard. Era deficiente visual e seu hobby era o radioamadorismo. Já o tinha visto em programas de tv falando sobre o assunto.

Certo dia, fui chamado a seu gabinete para combinarmos a realização de um almoço com a imprensa para homenagear a jornalista Helle Alves, dos Diarios Associados, a única brasileira presente quando da captura de Che Guevara na Bolivia, matéria que foi ao ar no Ultranotícias com muito destaque.

Nunca havia conversado com Roberto e nem sabia que ele trabalhava na Ultragáz. Ficamos bastante tempo falando sobre radioamadorismo, antes de entrar no assunto principal, que era a homenagem a jornalista.

Tinha em minha lembrança um dos filmes mais comoventes que assisti em toda a minha vida, que foi “Se todos os homens do mundo”. Filme francês da fase do “cinema realista” onde seu diretor Christian Jacque retratou, com muita competência, o drama vivido por tripulantes de um barco pesqueiro, acometidos por botulismo, doença provocada pela ingestão de carne deteriorada. Apenas um dos tripulantes estava são e conseguiu passar por rádio uma mensagem de socorro que foi captada por um radio amador, que fez contatos com outros, formando uma corrente internacional, que possibilitou que chegasse aos tripulantes um soro salvador. Um filme cujo tema era a solidariedade, e devia ser exibido nos dias de hoje.

Comentava com Roberto a beleza do filme, e senti nele uma vontade muito grande de falar a respeito do radioamadorismo e de sua atuação. Foi quando me relatou o trabalho que os radioamadores brasileiros desempenharam em 1960 durante o rompimento do açude de Orós no Ceará.

Depois vim a saber da dedicação e participação de Roberto Isnard na ajuda aos moradores da região aonde aconteceu a tragédia, o que lhe rendeu várias homenagens. Roberto também me emocionou.

Passei a frequentar a sala de Roberto e tivemos alí longos e agradáveis papos. Era extremamente bem relacionado e tinha sempre uma história pra contar.

Certa vez fui procurado por uma colega de trabalho, que me comunicou que Roberto seria homenageado no programa “Esta é a sua vida”, comandado pelo jornalista Carlos Gaspar na TV Tupí, e gostaria que eu participasse. Claro que me coloquei a disposicão. Recebí a visita de um dos produtores do programa, passei algumas informações sobre Roberto e no final da conversa entrou em minha sala o Haya meu irmão gêmeo, que tinha ido me buscar no trabalho. Na hora esse produtor teve a idéia de convidar meu irmão para participat também do programa, pois queria fazer uma brincadeira com o Roberto. Só pra lembrar, Haya e eu somos gêmeos idênticos.Temos o mesmo timbre de voz, até nossa mãe nos confundia ao telefone e por várias vezes quando fazíamos programas de rádio juntos, e um de nós saia do estúdio por algum motivo, o outro falava pelos dois. Fomos os dois aos estúdio da TV Tupí no dia do programa como combinado. Roberto estava conosco na platéia, pois havia sido informado que o homenageado era Henning Boilesen, superintendente da Ultragáz. Carlos Gaspar abre o programa, faz todo aquele blábláblá e em vez de Boilesen chama Roberto Isnard dando ênfase a apresentação “E Roberto Isnard ...essa é a sua vida!” Aplausos e Roberto acompanhado por um dos produtores sobe ao palco e alí começa o programa .

Muitos convidados que por algum motivo tinham alguma ligação com Roberto eram chamados para homenagea-lo. Foi quando Carlos Gaspar me chamou e, em vez de eu ir ao encontro de Roberto, foi meu irmão, empurrado por um dos produtores. Haya disse algumas palavras a Roberto que imediatamente retrucou...”Mas esse não é o Lafayette”, em seguida adentrei ao palco e a platéia aplaudiu admirada. Roberto, não sei como, sabia de meu hábito de usar gravatas coloridas, e respondeu com muito humor a Carlos Gaspar, como havia distinguido minha voz, uma vez que nem minha mãe conseguia: “Foi pela cor da gravata”. Roberto Isnard é uma dessas pessoas raras de se encontrar nos dias atuais.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

1969/Rádio Apolo


São poucas pessoas que conheço, que ouviram falar nessa emissora de rádio. Até, talvez, se lembrem da Rádio Industrial Paulista. Na verdade trata-se da mesma emissora. Rádio Industrial Paulista, tinha sua sede no bairro de Pinheiros e sua programação era voltada à colonia nipônica. Sucessos musicais, noticiários e anunciantes de produtos orientais preenchiam os horários da emissora, que era dirigida e de propriedade de japoneses. Quando passou a se denominar Rádio Apolo, fazendo alusão lógica às naves espaciais do Projeto Apollo durante o governo Kennedy, mudou de endereço e de personalidade. Foi para a Praça Oswaldo Cruz e eliminou a programação nipônica. A pequena Rádio Industrial Paulista preparava-se para crescer.

Foi o amigo Helio Cordeiro, com excelente passagem como repórter pela Jovem Pan e com quem já havíamos trabalhado em 1962 na Midas Propaganda, que nos encaminhou a tal Rádio Apolo, que precisava de uma sustentação em sua programação noturna e passava como toda a emissora, por uma reestruturação. A dupla dinâmica entrava em ação mais uma vez!

Claro que não era nada atraente a proposta financeira oferecida pelos administradores da emissora.

Não havia salário. Nós é que tínhamos que buscar o nosso ganho, mas em compensação, nos 3 primeiros meses, não teríamos que repassar nada a rádio. Eram permutas e mais permutas, pois tínhamos que mostrar aos novos anunciantes que o programa era super procurado por anunciantes diversos. Permutas de butiques, restaurantes, oficinas mecânicas, cinema ao ar livre (na época muito em voga), enfim, o que viesse era bem vindo. Difícil, era depois repassar tudo aquilo e fazer dinheiro, pois as crianças estavam crescendo e com elas as despesas aumentando.

Meu irmão Haya deu a idéia de fazermos um programa que desse opções de entretenimento para a semana, que abrisse espaço ao ouvinte solitário e executasse o melhor da música brasileira.

Funcionou. Tínhamos uma agenda de entretenimento bem atual, a seleção musical por motivos óbvios, não poderia ser melhor. O ouvinte solitário encontrou no “Último Programa” um cantinho amigo para suas solicitações. Este último segmento do programa era interessante, pois as pessoas que alí chegavam, não traziam dramas nem desgraças, apenas desabafos e vontade de encontrar entes que não viam há muito tempo. Eram figuras curiosas que prendiam a atenção de nossa minúscula audiência, e isso, mais por causa da baixa potência de seus transmissores do que pela qualidade de nosso programa, modéstia a parte.

O programa ia bem, havia até uma perspectiva de termos outros horários na programação, mas... no final do ano de 1968, mais precisamente em dezembro, foi instituído o Ato Institucional número 5, que determinava a censura total à imprensa e deu início ao fechamento de muitas emissoras de rádio em todo o país. Claro que São Paulo foi premiado, e, com vários tipos de justificativas, a ditadura militar encerrou as atividades de emissoras que, segundo eles, podiam difundir “atos nocivos à nação”.

Por outro lado, passaram a conceder autorizações para a instalação de emissoras que transmitissem em “Frequência Modulada” e que só executassem músicas. Nada de notícias. Nada de jornalismo.

E foi assim com a pequenina e inofensiva Rádio Apolo que também foi, como muitas outras, fechada pela ditadura militar. E o nosso inocente programa de entreterimento e interatividade com o ouvinte, tão em voga nos dias atuais, acabou por se tornar um perigo a "segurança nacional".

domingo, 16 de agosto de 2009

1965/Ary Toledo

Ary Toledo era um personagem que transitava com frequência pelo Teatro de Arena. Ali começou sua carreira como ator, aliás como varredor, depois de alguns dias insistindo com Boal para que lhe desse uma chance, largou a vassoura. Fez uma ponta em “”Revolução na América do Sul”, mas o objetivo era mesmo mostrar suas composições, na maioria sátiras políticas recheadas de palavrões. Para ele, a partir de duas pessoas, já tinha público suficiente, para empunhar seu inseparável violão (era sofrível no instrumento) e mostrar algumas de suas obras. Não era cantor, mas sabia “dizer”como ninguém, as letras de suas composições. Ríamos bastante com suas interpretações, sempre cheias de muitas caretas.

A certa altura, Ary já tinha um repertório pronto para um show solo, quando numa conversa informal, resolvemos fazer uma apresentação sua numa segunda-feira no Arena, data semanal que dedicávamos às “Noites de Bossa”. Claro que foi um sucesso!

A partir daí, rodou por muitos inferninhos, circos e teatros no interior com suas apresentações

Quando em 1966, um anos depois da estréia na TV Record do programa “O Fino da Bossa”, Ary levantou a platéia e teve que voltar 5 vezes para o “bis”, não havia mais dúvidas sobre o seu talento e o rumo que tomaria a sua carreira. Seu primeiro grande sucesso “Pau de Arara”, uma caricatura do nordestino que vem para a cidade grande, tocava mais que os Beatles nas emissoras de rádio. Depois vieram “Canção do Subdesenvolvido”, " Descobrimento do Brasil” e várias sátiras políticas, que lhe renderam várias prisões e cortes de censores nos programas de tv que participava.

Com toda a esta verve cômica, Ary foi enriquecendo suas apresentações com piadas, que o tornaram o maior contador de piadas de todos os tempos. Dizem que seu acervo coleciona mais de 30 mil.

Em 1982 tive o prazer de te-lo em meu projetoJornalfone”, aonde gravava suas incríveis piadas para o “Disque Piada”. Chegava em seu “Fusca” prateado (na época ele cabia em um), e até chegar ao estúdio, que ficava nos fundos de uma casa na Rua Barão do Triunfo no Brooklin, eram dezenas de piadas novas que ia contando. Entrava no estúdio e ficava várias horas gravando, sempre de bom humor e orgulhoso pelo trabalho pioneiro, que era contar piadas ao telefone.

Ary hoje roda o pais inteiro com seu show. Provavelmente tenha sido o precursor no Brasil do“StandUp”, o espetáculo de comédia feito por apenas um humorista, tão em voga nos dias de hoje.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

1965/Plinio Marcos



Durante o período em que ocupamos o Teatro de Arena, nos anos 60, quando produzíamos as famosas “Noites de Bossa”e “ Noites de Jazz”, tivemos a oportunidade de conhecer e conviver com muitos atores, atrizes e autores de vanguarda, que por ali circulavam. Alguns marcaram seus nomes na história da dramaturgia brasileira, como Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal ,Dina Sfat, Paulo José, Claudio e Sergio Mamberti , Jacques Lagoa, Plínio Marcos e muitos outros. Com o sucesso das novelas, muitos viraram superastros, outros direcionaram suas carreiras para a publicidade, alguns continuaram no mundo do teatro e também teve o time dos que desistiram.

Era costume do pessoal do Arena freqüentar o bar Redondo, que até hoje existe nas esquinas da Ipiranga com a Theodoro Baima. Ali, sentados nas mesas do bar, peças teatrais foram combinadas, textos foram escritos e elencos formados. O Bar Redondo era, sem dúvida, a extensão do Arena.

Foi numa daquelas mesas que conheci Plínio Marcos. De jeito desengonçado, fumando muito, desbocado e relaxado nas vestimentas Plínio era uma figura. Com gênio e personalidades fortes, era muito respeitado pelos colegas da classe teatral.

Nessa época trabalhava na TV Tupi, no setor de almoxarifado ou tráfego, não me recordo bem, e suas obras começaram a aparecer, principalmente pela censura e ele rotulado pela mídia como o “escritor maldito” “o boca suja” e vários outros adjetivos.

Reencontrei Plínio Marcos no final dos anos 80, trazido pelo amigo Walter Silva, para participar do nosso futebolzinho, que era jogado religiosamente aos sábados no campo de “society “de terra batida do Colégio Santa Cruz.

Mais gordo, mais famoso, mas, continuava irreverente, desbocado e polêmico. Difícil era o jogo, em que estando presente, não saísse uma discussão, esquecida automaticamente, ao final da “pelada”.

Em 85 fundei com minha mulher Ruth, um jornal de bairro e entre os nossos colaboradores tive Plínio Marcos. Tinha uma coluna sobre esoterismo. Ele mesmo me pediu para ter aquele espaço e divulgar seu trabalho. Não reivindicou nada em troca e eu me senti honrado em tê-lo como colunista do Jornal da Rua.

Certa vez, no começo dos anos 90, ia participar de uma feira esotérica no Anhembi e ligou para me convidar para a inauguração. Fazia questão que eu fosse com Ruth minha mulher, também ligada aos assuntos esotéricos. Por algum motivo, ficamos impedidos de comparecer a inauguração da tal feira.

No dia seguinte, Plínio me ligou nervoso, me dando uma tremenda bronca, falando todos os palavrões que seu extenso vocabulário era conhecedor, sem ao menos deixar que eu explicasse o motivo de minha ausência. Antes de bater o telefone na minha cara, ainda avisou “ E não escrevo mais naquela porra de jornal! ”

Sumiu o meu amigo. Nem no futebol ia mais. Liguei para o Walter, que justificou que ele andava muito nervoso, mas que, pelo que conhecia do Plínio, logo voltaria a falar comigo. Ainda liguei para ele umas duas vezes sem sucesso.

Em 92 durante uma “pelada” com amigos em minha chácara em São Lourenço da Serra sofri um acidente vascular chamado de “Síndrome da Pedrada”, que, segundo o ortopedista que me atendeu, deixa em você a nítida impressão de ter levado uma pedrada na perna. Resultado: perna engessada e imobilidade de mais de 30 dias.

Passava o tempo assistindo TV, ouvindo rádio e lendo livros e jornais. E foi numa leitura de jornal que vi o anúncio do Clube de Criação de São Paulo, sobre um concurso para locutores de comerciais chamado “Ponha a Boca no Microfone”.

Pedi a minha secretária no Jornal da Rua, que mandasse um mensageiro até o Clube de Criação e me trouxesse a ficha de inscrição, gravei uma fita cassete com o texto indicado e mandei. Uns 40 dias depois, já sem o gesso, fui receber o prêmio. Havia sido um dos escolhidos com direito até a um trabalho para a Caloi.

Quando ainda saboreava a conquista, que espantou vários amigos, que me perguntavam se aquele que ganhara o prêmio era um de meus filhos, recebo uma ligação do Walter Silva me passando um recado. Plínio estava com um monólogo no Teatro Cultura Artística, e havia deixado na bilheteria dois ingressos para mim e Ruth.Claro que fomos!

Para nossa surpresa durante o monólogo, muito engraçado e cheio de histórias inusitadas, Plínio de repente, começa a improvisar e inclui no texto uma homenagem pelo fato de eu, com 54 anos, ainda ir em busca de atividades novas, já que nunca havia feito locução comercial . Do teatro, ainda fizemos um tour com Plínio pela noite paulistana oferecendo seus livros, como era o seu costume.

Plínio Marcos morreu em 19 de novembro de 1999 aos 64 anos de idade. Era santista, mas seu clube do coração era o Jabaquara da cidade de Santos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

1979/Cálice

Era 23 de outubro de 1979. A rua Henrique Schaumann na época se transformava num pólo de bares e restaurantes. Alguns vindos da Av. Ibirapuera, em Moema, que começava a se esvaziar, as casas de samba, que ali tinham o seu reduto, estavam em baixa. Também havia quem apostasse naquela nova região, que acabou por se transformar em um “ point “ de sucesso da noite paulistana.

Por essa ocasião um de nossos clientes de assessoria de imprensa, era uma famosa casa de massas de Pinheiros, a “ Pastíssima”, que ficava na Rua Antonio Bicudo e era comandada por Reynaldo Gassib. Por ele fomos apresentados a Ítalo Crivelli, com quem tivemos e temos ainda uma boa amizade. Reynaldo iniciava um projeto com mais alguns sócios para abrir uma choperia na Henrique Schaumann, esquina com a Rua Arthur de Azevedo. Já tinham o ponto, o desenho da casa e haviam feito uma parceria com a Antarctica com o principal objetivo de oferecer o melhor chopp de São Paulo a seus clientes. Queriam algo que lembrasse ou até superasse o famoso chopp do “Pingüim de Ribeirão Preto”. Muitos metros de serpentina de cobre foram gastos, e 12 funcionários foram treinados na própria companhia para que o chopp fosse tirado com maestria e todos os cuidados, pois, também 2 supervisores da Antarctica fariam plantão permanente na casa para que tudo saísse a contento.

Nossa missão era de passar essas informações para a imprensa e futuros freqüentadores daquele, que se pretendia um espaço diferenciado.

E foi. Começou com o nome da casa. Cálice. Na época, a censura ainda estava ativa e os compositores se desdobravam para ludibria-la. Os censores, em sua maioria pessoas com baixo nível intelectual, eram enganados com freqüência. A música Cálice de Chico Buarque e Milton Nascimento estava censurada.

A peça teatral “Opera do Malandro” ensaiava para estrear no Teatro São Pedro e estava a caça de patrocinadores, quando soube que um bar com o nome de “Cálice” ia ser inaugurado. Seus produtores procuraram Reynaldo atrás de patrocínio já que o nome de Chico estava ligado a ambos os projetos. Reynaldo topou e ainda conseguiu a parceria da fábrica de moveis Artefacto. Teve dos produtores a promessa que Chico estaria na inauguração da casa.

Passamos a noticia para a imprensa, jornais, rádios TVs e na noite de 23 de outubro a Rua Henrique Schaumann literalmente travou. Segundo a edição do Jornal da Tarde do dia 24/10/79 mais de 5 mil pessoas se aglomeraram para conhecer a casa e, evidentemente, ver de perto Chico Buarque.

Nós mesmos tivemos dificuldades para desenvolver nosso trabalho no dia da inauguração. Tínhamos que receber jornalistas e personalidades do meio artístico, entre eles o próprio Chico.

Não conseguimos cumprir nossa parte totalmente. No meio daquele verdadeiro turbilhão de pessoas, não pudemos recepcionar o tão esperado convidado. Se ele chegou ao Cálice, ainda hoje é um grande mistério, em que pese muitas pessoas afirmarem que sim, ele teria dado uma passada saíra rapidinho, fugindo daquele burburinho.

Por outro lado, o amigo Ítalo Criveli, que por coincidência era muito parecido com nosso compositor, foi muito festejado!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

1964/Músicos da Noite

Algumas casas noturnas de São Paulo fizeram história. Muitas abrigaram alguns de nossos maiores músicos e cantores, outras deram oportunidade para aqueles em começo de carreira.

Podemos mencionar Cave, Stardust, Djalma, Juão Sebastião Bar, Ela Cravo e Canela, L’Amiral, Barba Azul, O Jogral, A Baiúca, Oasis, o bar do Hotel Cambridge, o Captain’s Bar, do Hotel Comodoro , os barzinhos da Galeria Metrópole e até aquelas casas de freqüência duvidosa, mas que davam espaço para os músicos da noite não só mostrar o seu valor, como também ajudar no seu sustento.

Era comum cruzar com músicos correndo pelas ruas na madrugada, pois a maioria tocava em duas ou mais casas na mesma noite. Durante o intervalo de uma, tocava na outra. Muitas vezes ainda, durante esses intervalos, ensaiavam na formação de novos conjuntos. Músicos do Zimbo, do Jongo, do Sambalanço e outros, foram exemplo desta prática.

Essa era a vida do músico da noite, que também se dividia entre estúdios de gravação e orquestras de bailes.

Na época os grandes clubes como Pinheiros, Homs, Paulistano, Tênis Clube, Casa de Portugal, salão do Aeroporto, eram os lugares ideais para os bailes de formatura e de debutantes, e as orquestras eram realmente as grandes atrações. As agendas de Silvio Mazzuca, Osmar Milani, Simonetti, e Luiz Arruda Paes eram disputadíssimas. Haviam músicos que eram verdadeiros astros, como o saxofonista Bolão e o baterista Turquinho, que faziam solo em todos os bailes, arrancando aplausos e gritinhos, o trumpetista Papudinho, o guitarrista Edgard Gianullo e muitos outros também eram deste time. A maioria desses músicos era da noite.

A boate Djalma’s, que tinha sido comprada pela dupla Luiz Vassalo e Paulo Kaloubek, dividia com a Baiúca e o Stardust, a melhor música da Praça Roosevelt, o elenco era simplesmente fantástico.

Fomos convidados a dirigir alguns shows, e a única exigência que nos foi feita, é que o elenco musical teria que ser aquele. Podíamos agregar o que achássemos conveniente para um bom espetáculo, mas “não mexam nos músicos da casa”, nos recomendou um dos donos, de maneira bem incisiva.

Eram empresários da noite, não entendiam nada de música e sim de negócios. Tinham outras casas, inclusive um bar, que ficava em cima de um posto de gasolina, ao lado do jóquei, (até hoje existe o posto), que era famoso na época pelas moças que ali freqüentavam. O uísque, diziam ser de procedência duvidosa, mas nunca vimos nenhum cliente reclamar.

Mas, voltando ao elenco musical do Djalma’s, quando soubemos quem eram os músicos com os quais teríamos que trabalhar, uau!!, simplesmente ficamos boquiabertos. Eram considerados ícones da noite paulistana.

Luiz Melo (piano) Xu Viana (contrabaixo) Turquinho (bateria), Papudinho(trumpete) Kuntz (sax e flauta) e Hector Costita (sax e clarinete).

Com certeza Luiz Vassalo e Paulo Kaloubek, não faziam idéia do nível de música que tinham. O primeiro pocket-show que produzimos, foi com o sexteto, algumas bailarinas e o sambista Germano Mathias. A idéia era também agradar os turistas, já que bons hotéis estavam nas imediações, e um trabalho de divulgação estava sendo feito.E deu resultado. A casa vivia cheia e o público curtia bastante o show.

Do outro lado da praça estava o Stardust, da dupla Hugo e Alan. Eles eram muito bons, tocavam sucessos internacionais e dividiam a música da casa com o sambista Jair Rodrigues e músicos como Heraldo do Monte e o excelente Aires um violonista muito admirado pelos colegas.

Jair costumava cruzar a praça, para ouvir aqueles músicos formidáveis e dar uma canja no final da noite. Numa destas vezes, nos apresentou um cantor jovem de nome Moacir, que estava desempregado, e cantava muito bem. Tinha muito balanço, era simpático e comunicativo. Pediu-nos que déssemos uma força ao rapaz. De fato, Moacir se deu muito bem com os músicos da casa, agradava o público e por isso acabamos sugerindo a sua contratação. Moacir foi rebatizado “Djalma Dias” pelo produtor Alfredo Borba, que justificou a troca pois, no momento, o nome de sucesso era Moacir Franco, líder de audiência na TV Excelsior. Com o mesmo nome, fatalmente, ficaria ofuscado.

Djalma Dias depois foi lançado em uma das Noites de Bossa, que produzimos no Teatro de Arena, e tempos mais tarde, fez vários trabalhos com Abelardo Figueiredo, inclusive no exterior.

No vídeo uma homenagem aos músicos da noite, representados por alguns daqueles que fizeram a história de nossa música popular.

Dick Farney – Sabá (contrabaixo) Toninho Pinheiro (bateria)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

1958/Las Mulatas de Fuego


Da janela de meu apartamento, localizado na Broadway esquina com a Rua 76 em Manhattan, podia observar muitas coisas interessantes. A cidade com todo o seu charme me fascinava. Queria tomar contato com tudo. Meus olhos não paravam na busca pelo “algo novo”. Quando não estava caminhando no entorno do prédio onde morava, passava um bom tempo grudado nas grandes vidraças das janelas de minha sala, no décimo andar, observando as pessoas lá embaixo. Eram tipos diferentes, estranhos, que me chamavam a atenção. Mulheres passeando com seus animais de estimação, gente vestida com roupas diferentes, tipos estranhos para mim. No canteiro central da avenida, os bancos serviam de descanso para os mais idosos, casais de namorados ou mesmo para solitários encapotados, esses quase sempre, consumindo algum tipo de bebida, na tentativa de afastar o frio ou quem sabe a solidão, um comportamento comum, como constatei no decorrer de minha estada.

A noite a paisagem era diferente. Eram visto grupos de jovens conversando, bebendo, cantando, fazendo algazarras.

Da janela do quarto, o cenário era diferente. Ficava do outro lado do bloco do prédio e, vez por outra, flagrava cenas inusitadas. Briga de casais, adestramento de animais, estudos de músicos, bailarinas ensaiando coreografias e curiosamente para mim, muitos moradores idosos e pouquíssimas crianças.

Lembro-me de uma senhora de idade bastante avançada que, invariavelmente, abria a persiana de seu apartamento por volta das 9 horas da manhã, já vestida, sempre usando luvas e chapéu. Saia, e só voltava no final da tarde. Vim, a saber, mais tarde, que aquela senhora, que já devia beirar os setenta anos, saia para o trabalho. Era telefonista de um hotel nas proximidades.

Mas o bloco ao lado nos oferecia também imagens generosas.

Numa destas ocasiões, flagrei um grupo de moças, que ensaiava uma coreografia de ballet no apartamento bem em frente ao meu. Fiquei um bom tempo a observar aqueles movimentos perfeitamente sincronizados. Estava impressionado. Torcia para que os ensaios se repetissem, com as persianas abertas, para que pudesse assistir a aquele show.

Um dia, recebendo uns amigos para uma sopa, fomos brindados com um ensaio do grupo. Chamei-os até a janela e puderam durante alguns minutos observar. As moças, quando perceberam a platéia, fecharam as persianas e acabaram com nossa alegria. Tudo de maneira bem simpática e cordial.

Desse grupo de amigos fazia parte um argentino, chamado Tony Ruiz, que trabalhava como “mestre de cerimônias”nos shows latinos identificou as bailarinas pela coreografia, como sendo do corpo de baile do Radio City Music Hall, ou seja, eram algumas das famosas Rockettes.

Tony era bem o tipo do argentino “charlador”.Vestia-se impecavelmente, penteava-se usando toda a “gomalina” disponível e, com um inglês horrível, conseguia se comunicar e tinha muitos amigos. Era esperto. Não tinha residência fixa. Morava em hotel barato. Chegava de mansinho e, quando a gente, percebia estava morando na sua casa.

Fui a alguns shows que ele apresentou com grupos venezuelanos, porto-riquenhos e cubanos. Saia-se muito bem. Sempre ao final dos shows, juntava-se ao elenco, para comemorar o sucesso, em algum restaurante ou casa noturna. Claro que sem convite algum, aliás, várias vezes fui incluído no pacote, e eu sempre aceitei. Era muito bom. Num destes espetáculos, apresentou um show com elenco de porto-riquenhos, que tinha um “cover”do famoso comediante mexicano Cantinflas e um cantor chamado “El Jibarito”, o qual, me confidenciou ser anunciado como um ídolo mirim, quando, na verdade, já havia completado 25 anos, mas para a platéia, facilmente passava por um adolescente . Tinha a cara de menino, e lógico, não se misturava ao elenco que saia para a noite após os shows, para não levantar nenhuma suspeita. Podia cruzar com algum espectador.

Nessa época ouvia-se muita música hispânica na América. Os discos de Perez Prado, Xavier Cugat, Tito Puente, Sonora Matancera e outros, eram disputados nas lojas de Manhattan. O mercado era grande, e em vista disso, os shows com elenco latino para esse público, eram comuns. Era o “ganha pão” de Tony.

Já fazia uns quinze dias que não tinha notícia do argentino, quando me apareceu em casa, acompanhado de uma mulata estonteante, duas vezes o tamanho dele - “ Carioca, vamos ter um show sensacional com um pessoal de Cuba, que aliás já está hospedado aqui no hotel ao lado, e gostaria que você me ajudasse a fazer companhia as dançarinas, que querem conhecer o Times Square”, e me piscou o olho. Estranhei aquele convite, mas era impossível de ser recusado. Comecei a desenvolver uma conversa com Anita, a simpática cubana, que gostou quando lhe disse que meu pai havia homenageado o poeta cubano Jose Marti, colocando em minha certidão de nascimento, como “middle name”, o nome do poeta. Aquilo a deixou espantada e, quando me dei conta, já eram três as cubanas comigo, desfilando . Claro que aquela cena não chamou a atenção de ninguém, a não ser a minha. Tony o argentino virou meu ídolo! E se aproveitou disso, passando uma temporada sem pagar hotel, hospedado em minha casa.

Meu apartamento, virou refúgio das cubanas, aonde tomávamos Rhum , comíamos batatas chips e tínhamos longas conversas sobre samba, bolero, mambo e cha cha cha. Tudo longe do carrancudo empresário, que as controlava. Mas só as três, o resto do grupo só vim a conhecer no dia em que se apresentaram.

Grandes estrelas faziam parte do grupo. A mais famosa, a cantora Célia Cruz.

Era um grupo grande e antigo, as célebres “Mulatas de Fuego”. Nas conversas muito agradáveis que tive com elas, fiquei sabendo de sua história. Começaram em 1947 no famoso cabaré Tropicana , tiveram varias formações, sempre com seis bailarinas, três cantoras e uma banda. Fizeram vários filmes, viajaram muito pela América e muitas delas se casaram durante as turnês. Deixaram saudades.

No vídeo as Mulatas de Fuego com a orquestra Sonora Matancera e a cantora Célia Cruz.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

1980/Frank Sinatra


Roberto Medina, herdeiro de Abrahan Medina, grande empresário do ramo de eletrodomésticos, dono da rede Rei da Voz no Estado do Rio de Janeiro e Harmônicas Scandali, sempre foi muito precoce. Aos dezoito anos era superintendente da Midas Propaganda e aos dezenove,  vice presidente da rede Rei da Voz. Ingressou na Art Plan Publicidade, house agency do grupo imobiliário Veplan em 1969.

Em 1978 implantou a empresa Art Plan Empreendimentos. Ali realizou o que muitos empresários haviam tentado sem sucesso durante anos. Trouxe Frank Sinatra ao Brasil para um show memorável no Maracanã.

Ainda hoje, consta do Guiness Book of the Records, como o maior público já registrado em um show solo. Foram 150 mil pessoas.

Para se avaliar a enorme vontade dos brasileiros em receber “A Voz” em nossa terra, até brincadeiras de gosto duvidoso eram cometidas por meios de comunicação. Um destes fatos, aconteceu no começo dos anos 60.

A TV  Record anunciou a vinda do cantor, mostrando na divulgação uma silhueta com chapéu característico, que insinuava que aquele era Sinatra.

O show, marcado para a noite de 31 de março, entrou no ar, propositalmente atrasado, nos primeiros minutos do dia primeiro de abril, e quem adentrou ao palco, foi o cantor Decio Cardoso, um “ cover “do Sinatra. A  Record, sem nenhum escrúpulo, simplesmente confessou ser um “primeiro de abril”.

Mas voltando ao ano de 1980, o meio artístico simplesmente entrou em polvorosa, com a confirmação da vinda de Mr. Sinatra ao Brasil. Havia uma movimentação intensa, as

prateleiras das lojas de discos se prepararam e estavam recheadas com suas gravações.

Revistas publicaram reportagens, contando curiosidades sobre o cantor, os músicos da noite incluíram  os seus sucessos em seus repertórios. A Sinatromania tomava conta do país.Os fãs exultavam.

Acompanhei a carreira de Sinatra desde os  tempos em que ele era crooner. Conheço bem o seu repertório e, talvez por causa disso, não pudesse ficar distante do grande acontecimento de 2 de fevereiro de 1980.

Alguns fatos interessantes aconteceram. Certo dia fui procurado pelo cantor Decio Cardoso, aquele mesmo que cantava como Sinatra, que precisava de algumas músicas para um show que faria no Gallery, um “night club” fechado, comandado por José Vitor Oliva. A música que mais interessava a Decio era The Continental.

Enquanto isso, um grande agito acontecia na Rádio Capital, na época dirigida por Helio Ribeiro, outro fã confesso de Sinatra, que sabia dos meus conhecimentos, pois era comum, nos juntarmos para executar alguns de seus “hits”. Em nossos tempos de Radio Bandeirantes, nos refugiávamos em um estúdio, que tinha um belo piano, e fazíamos o nosso show particular. Ele cantando e eu acompanhando ao piano.

Por esta ocasião, além da assessoria de imprensa para a Rádio Capital, também assessorava Helio em algumas questões. E foi atendendo a sua solicitação, que colaborei

para colocar no ar um programa totalmente dedicado a Sinatra. José Maria Scacchetti foi o apresentador do programa. Elaborei o roteiro musical, ajudei com o texto e forneci os discos.

Helio fez questão que o programa tivesse a mesma duração do show, que lotou o Estádio do Maracanã. Qualquer tipo de transmissão durante a apresentação fora proibida, assim, mantínhamos um contato direto com nosso correspondente no Rio, que fora do ar  passava as informações, e estas eram repassadas aos ouvintes entremeando as músicas. O programa simultaneamente ao show terminou como o título de um dos maiores sucessos de Sinatra: “In the small hours of the morning”.

Para assistir performances de Sinatra ,acesse www.youtube.com.br e faça a pesquisa em seu nome.Como são videos protegidos não podemos exibi-los no blog.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

1966/Lima Duarte

 

O ano prometia ser dos mais animados em termos de trabalho. Estava na Record, na época líder de audiência, fazendo rádio e TV.

Na rádio, com um programa diário e um semanal, e na TV, dois programas semanais. Um com a apresentação de Henrique Lobo (Dois na Gangorra), aos sábados à tarde, como produtor executivo, e outro, nas noites de sexta feira, com Blota Jr, como membro de uma equipe de produção, que incluía meu irmão Haya Hohagen, Lemos Brito, José Guimarães, Manoel Carlos e Blota Neto, filho do apresentador.

O “Blota Jr Show”, marcou  época na televisão brasileira. Blota era um   entrevistador  elegante, simpático, culto, de perguntas inteligentes e de rápido raciocínio.

Formava com Sonia Ribeiro, sua mulher, o casal mais elegante da TV.

Tinham muitos admiradores, e eram muito queridos por seus companheiros de trabalho. 

Tive com Blota Jr uma convivência muito prazeirosa.

Mas em junho desse ano, numa medida de contenção de despesas, houve um corte de funcionários. Henrique Lobo e sua equipe foram dispensados e nós também.

Blota como sempre muito companheiro, prometeu nos ajudar no que fosse possível.

Estávamos em começo de carreira na TV. Haya recém casado.

Blota Jr, já nessa época, militava na política. Haveria eleições para Senado, Câmara Federal e Assembléia Legislativa. Ele era candidato.

A ARENA, partido do governo, pelo qual Blota disputaria a eleição, estava se estruturando para a campanha e seu presidente, o deputado federal Arnaldo Cerdeira, lhe pediu, por ser ele homem de comunicação, que indicasse alguém para organizar aquele setor. Imediatamente fomos indicados.

Tivemos uma longa reunião com o presidente Arnaldo Cerdeira e com o secretário geral do partido, Hamilton Prado, ocasião na qual, traçamos a estratégia da campanha para rádio e TV. 

Fizemos várias inovações, entre elas, um programa de entrevistas semanal, com o comando de Branca Ribeiro e Roberto Arruda na TV Excelsior, foi um verdadeiro sucesso, por fugir do esquema convencional dos programas políticos.

Branca Ribeiro sempre vestindo longo e Roberto de smoking, conduziam programa, focando o lado humano e pessoal do candidato. Não se falava em política.

Lá os candidatos falavam de poesia, contavam causos, mostravam suas aptidões artísticas, o que prendia o telespectador, num horário onde, o número de televisores desligados, era cada vez maior, pois, de um lado a ARENA, do outro o PMDB, se confrontavam com muita baixaria, e um verdadeiro festival de insultos.

Ao criar uma opção para apresentar os candidatos, conseguimos melhorar a audiência e, por que não dizer, torná-lo um sucesso.

Para o rádio, montamos na sede do partido,  um estúdio de gravação de áudio e um bureau de informações, comandado pelo diplomata, jornalista e historiador, José de Carvalho e Silva, meu querido avô, que se encarregava de levantar temas de interesse público para serem distribuidos aos candidatos. Gravávamos a fita, que era enviada às emissoras, para entrar nos horários reservados a campanha política.

Certa ocasião, Cerdeira nos chamou e pediu um material de impacto para por no ar no horário nobre. Queria um texto forte e alguém de fácil comunicação para interpretar. De preferência um ator.

Silas Roberg , redator, dramaturgo, foi o escolhido para redigir o texto. Procuramos Lima Duarte para gravar, mas ele se recusou. Não compactuava com o governo. Indicou-nos o excelente Percy Ayres, que também era um ator de interpretações de grande impacto. Chegamos a ensaiar o texto algumas vezes, mas as vésperas da gravação, que seria feita nos estúdios da TV Tupi, Percy foi acometido de uma crise renal e hospitalizado. Corremos para Lima Duarte, contando nosso o problema. Lima  olhou bem pra nós ,coçou a cabeça e disse : “Eu vou fazer! Preciso ajudar um cenógrafo da TV, que foi levado pelo pessoal do Dops e que tem mulher e filhos, que ficaram desamparados.Vou fazer por eles”

E fez.  E com que categoria!  Com que profissionalismo!

Ao final do trabalho  Cerdeira enalteceu bastante a peça elaborada por Lima Duarte, a quem creditou parte do sucesso, que foi a campanha.

O ator por seu lado ficou feliz por ajudar um amigo, naquele momento difícil, pelo qual passaram vários de seus colegas.

Recebemos muitos elogios e a gravação  foi muito comentada na época.

No vídeo uma homenagem a esse incrível ator.


 

 



 

 

  


segunda-feira, 27 de abril de 2009

1968/Ramos Calhelha


 

 

Eu chegava  ao prédio da rádio Tupi, quando avistei na Padaria Real, ponto de encontro do pessoal da emissora, o Helio Ribeiro, nosso diretor, que com um aceno me convidou para um cafezinho.

Estacionei meu Renault Dauphine, e fui ao seu encontro. Helio se mostrava  inquieto e nitidamente  ansioso. Ao me aproximar soltou a pergunta bem baixinho: “o que você acha de trazermos para a rádio o Ramos Calhelha? Eu de pronto respondi “e você acha que o dr. Edmundo Monteiro, na época superintendente dos Diários Associados, vai te liberar verba pra pagar o salário dele? Você acha que ele deixa os Estados Unidos, pra vir trabalhar aqui? “

Eu ia perguntando, e ele com um sorrisinho maroto esperava eu parar com a bateria de indagações, todas sem sentido para ele, para me dar a grande notícia.  

Me fez pagar o cafezinho, e me puxou para fora da padaria em direção ao décimo andar do prédio, onde ficava sua sala. Encostou a porta, ligou seu gravador Akai de rolo, se reclinou na  cadeira com os pés em cima da mesa, enquanto a voz de Ramos Calhelha anunciava um monte de músicas. Chamou Magno Salerno e o Valdir Santos, que eram uma espécie de diretores musicais da Radio Tupi, e exibiu seu troféu.

Helio havia feito um acordo com o pessoal da Varig. Ele enviava a fita virgem com um texto elaborado por Valdir e Magno para Calhelha nos Estados Unido, e lá o locutor gravava o texto e mandava a fita de volta.

Ramos Calhelha era um ícone. Era a voz da Metro, dos jornais da tela, enfim era um profissional cobiçado, mas de certa forma, difícil de ter. Não para Helio Ribeiro.

Ele queria e arrumou a maneira de realizar seu projeto.

A primeira fita do programa, que ia lançar uma parada de sucessos, na espetacular voz de Calhelha, havia chegado. Agora, era só fazer a montagem e colocar no ar.

Helio tinha uns rompantes de criatividade e, enquanto não via a coisa finalizada, ficava inquieto. Não falava no assunto em público.  Apenas com as pessoas envolvidas ou com as mais chegadas, com quem apenas cochichava. Tinha um histórico de idéias copiadas e aproveitadas por pessoas inescrupulosas, que o chateava bastante.

Enfim afinou o projeto, e colocou no ar sua “ parada de sucessos “ com a apresentação de Ramos Calhelha. Foi um estouro!

Tempos depois quando Helio dirigiu a Rádio Capital, concretizou por completo a sua vontade, e trouxe o locutor de volta ao Brasil para trabalhar com ele.

Tive o prazer de desenvolver um projeto para a Radiobrás, com a locução do Calhelha  e a redação do jornalista Teixeira Veloso.

Gravamos vários pilotos. Todos impecáveis. O projeto serviria para transmitir programas para brasileiros residentes no exterior. Infelizmente por problemas políticos, não vingou.

Calhelha nos deixou em 2002. Vivia, já há alguns anos numa chácara em Águas de Lindóia, onde fora viver com sua família.

Só para matar a saudade, ou para os mais jovens, conhecer um ícone da radiodifusão, vale a pena ouvir a narrativa de Ramos Calhelha, nesse texto de Richard Bach, “Jonathan Gaivota .”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 20 de abril de 2009

1965/Boite Oasis


Ficava na Rua 7 de abril, em um “basement”do cine Coral, e era um dos pontos mais procurados pelos boêmios e turistas, que visitavam São Paulo.

A comida era muito boa, mas os “pockets shows” eram a atração maior. Naquele espaço apertadinho, muitas estrelas se apresentaram,  e tivemos o privilégio de participar de algumas dessas performances.

O horário dos shows era os dos verdadeiros boêmios. Invariavelmente começavam após a meia noite. Não era nada confortável para meu irmão Haya e eu, mas tinham lá as suas recompensas, como usufruir daquela comida maravilhosa, que nos era servida, como se fôssemos os melhores clientes da casa.

O primeiro show que dirigimos na Oasis, foi com o Zimbo Trio e Ellis Regina, no auge de sua carreira. Tinham chegado de uma turnê de muito sucesso pelo Peru e Argentina, e o Zimbo havia ganho o Troféu Roquete Pinto de melhor conjunto instrumental.

Fomos  procurados na Rádio Piratininga, onde produzíamos e apresentávamos o programa “Bossa à Noite “, por Roberto, um funcionário de Marcos Lazaro, empresário da cantora, que solicitava nossos serviços para a iluminação e direção de cena do show, que marcaria uma temporada do pessoal na boite.

Achamos a proposta financeira muito baixa e nos recusamos a fazer o trabalho.

Nossa contraproposta foi recusada. Mas no dia seguinte, eis que o emissário de Marcos Lazaro volta a nos procurar, o Zimbo e Ellis, impuseram nossos nomes para  execução daquele trabalho.

Foi uma temporada que deixou boas recordações. Zimbo em grande fase e Ellis, a sensação do momento, vibrando muito com a iluminação que criamos, pois destacava  os movimentos que eram uma marca registrada, das suas interpretações.

Nos bastidores, enquanto aguardávamos o horário de entrar em cena, as conversas sempre agradáveis com o Luiz Chaves, e a paquera com a crooner do conjunto, que fazia a música da casa.

Terminada essa temporada, fomos chamados para mais um trabalho na Oasis.

Dessa  vez, o show vinha do Rio e era uma adaptação da peça de Carlos Lyra e Vinícius de Morais, “Pobre Menina Rica”, e tinha no elenco Baden  Powell e Dulce Nunes, com direção de Ruy Guerra.

Baden , considerado nosso melhor violonista, já conhecíamos, mas nem com Dulce nem com Ruy, tivéramos tido oportunidade de trabalhar.

Ruy era observado pela ditadura em tudo o que fazia daí fazer algo paralelo a seus filmes e composições, como esses pockets shows.

Dulce era mulher de Benê Nunes, um pianista famoso, o preferido do presidente Juscelino, freqüentador da alta sociedade carioca, que  tinha o hábito de abrir as portas de seu luxuoso apartamento para a turma da bossa nova.

Mulher sensível, bonita  e de voz cândida, como a das primeiras intérpretes da bossa nova. Sua presença no palco era encantadora.

Nosso trabalho foi o de  executar a marcação de luz,  já concebida pelo diretor. Alguns palpites na iluminação foram dados, apenas em função das limitações do equipamento da casa.

O mais que fizemos  nesse show, foi admirar a música de Baden, a beleza e interpretação de Dulce Nunes, principalmente em ”Estrada Branca”, composição de Vinícius e Jobim, que Ruy Guerra introduziu no show.

 Infelizmente não tive  a companhia do Luiz Chaves  e nem o conjunto musical da casa tinha uma crooner...

Até a proxima segunda feira


domingo, 5 de abril de 2009

1958/Errol Garner

Durante minha estada em New York, conheci lugares aonde se ouvia   boa música e se assistia a bons shows, como no Radio City Music Hall, o Birdland e barzinhos do Greenwich Village, que eram os meus preferidos, e onde se concentravam os músicos da noite, para mostrar ao público e empresários seus talentos.

Chegava cedo, pedia uma coca cola e ficava horas ouvindo o mais puro jazz.

No Birdland, era comum assistir a orquestra de Count Basie com seu crooner  Joe Williams ou algum convidado como Sarah Vaughan, lugar espremidinho, mas incrivelmente mágico.

No tempo em que vivi na  rua 76 com Broadway, costumava ir a um barzinho chamado “Negrita’s, com um amigo filipino, de nome Andrés, que me fora apresentado por Luiz Carlos Piffero ,gaucho, que tinha um daqueles empregos fantasmas  num escritório comercial do governo brasileiro em New York, o IBC Instituto Brasileiro do Café.

Através desses amigos conheci depois o Tadeu Cvintal,  hoje, renomado oftalmologista, Murilo Melo Filho, jornalista e diretor da revista Manchete entre outros,  de quem ficaram as  lembranças de grandes noites de boemia. 

O “Negrita’s”, se não me engano, ficava na rua 45 com a Madison Avenue. Nossa chegada causava certo alvoroço, por nosso estilo brasileiro (éramos a maioria no grupo), e porque o resquício da era de Carmem Miranda ainda pairava no meio musical. Havia um respeito muito grande pela imagem da artista brasileira. Os americanos gostavam de samba, que eu arranhava um pouco no piano.

A primeira vez que fui a este bar, vi que o Andrés sussurrou algo ao ouvido da Negrita, dona e pianista da casa, que ao terminar seu turno musical,  anunciou que havia na casa, naquele momento, um pianista brasileiro. Confesso que já havia tomado umas duas ou mais doses de Johnny Walker, provavelmente, o maior estímulo para que, sem o menor pudor, me dirigisse àquele Baldwin e começasse a tocar, como se fosse um profissional da noite, o que,  definitivamente, não era. Fui empurrado ao palco logo após o anúncio, e só sai porque havia um turno a ser cumprido, e na América existia uma rigidez profissional, se entrasse alguém do sindicato, era complicação na certa.

Vez por outra, Negrita me via e pedia para dar “uma canja “. Ela sabia que a música brasileira agradava, eu também não podia reclamar, pois a caixinha que ficava em cima do piano, se enchia de dólares e Negrita dizia com um sorriso largo: “take it! “. Claro, eu não reclamava, e gastava tudo lá mesmo!

Negrita dividia a música da casa com um pianista negro como ela, e que tinha uma característica bem interessante. Seu estilo me lembrava Errol Garner, um dos meus pianistas preferidos, conhecido pela sua mão esquerda marcante. Só que ele havia adaptado o estilo de Garner a um problema físico, e eu não havia notado. Não tinha o movimento dos dedos da mão esquerda, mas colocava com precisão a mão nos acordes, bem ao estilo de Errol Garner.

Na primeira vez que o ouvi tocar e fui a ele apresentado, fiz um comentário infeliz, achando  que seria um elogio: “ Puxa você tem o estilo de Errol Garner “, ao que me respondeu fria e secamente ”Sorry ,este é o meu estilo “. Eu estava conhecendo o jeito “fino e educado” dos gringos.

Até a proxima segunda feira!



 

domingo, 29 de março de 2009

1965/Aberto para Balanço



A coluna de " show business, " que Moracy  do Val comandava no jornal "Notícias Populares" começava  assim, na edição daquela semana de abril de 1965: "Opinião generalizada de músicos e cronistas presentes anteontem no TBC: " Aberto para Balanço" foi, em termos musicais um dos melhores shows até hoje realizados em São Paulo".
E eles tinham razão! Fomos felizes a começar com a escolha do nome do show.
O TBC vinha de um sucesso estrondoso com a peça "Os Ossos do Barão"com Otelo Zeloni e grande elenco, e ficaria fechado para algumas manutenções necessárias, pois a peça estava a pelo menos um ano em cartaz. Solicitamos a locação para apenas uma segunda feira, já que o Arena estava ocupado naquela data. Conseguimos a data, e anunciamos que íamos " Abrir para Balanço".
Uma semana antes havíamos feito uma homenagem ao Zimbo Trio, no Teatro de Arena, no show"Zimbo  Concerto"  que foi um grande sucesso. O trio faria uma temporada no Peru e  México, em excursão  programada pelo Itamarati. Lembro-me bem, que para  um dos números que executavam, criamos uma iluminação que destacava o teclado do piano do Hamilton Godoi, os dedos de Luiz Chaves nas cordas de seu contrabaixo e,  num efeito bem legal, colocamos um foco de luz nos pratos da bateria de Rubens Barsoti durante seu solo.  
Queríamos, Haya e eu, fazer algo também diferente e de impacto no show do TBC.
Surgiu a primeira idéia: porque não colocar  dois trios tocando juntos no mesmo palco?
A sugestão foi prontamente aprovada pela equipe de produção e pelo Jongo Trio (Cido Bianchi, Sabá e Toninho Pinheiro) e Sambalanço Trio (Cesar Camargo Mariano , Clayber e AirtoMoreira),  trios que faziam muito sucesso na época.
Completamos o elenco com Walter Santos, Maricene Costa, Pery Ribeiro, Taiguara, Djalma Dias, Marisa, Carlos Castilho e Vera Brasil.
Quanto ao roteiro musical, queríamos músicas novas, alguns lançamentos, o que deixou o elenco bastante satisfeito. Marisa cantou além de seus sucessos, duas músicas novas de GeraldoVandré, acompanhada pelo Jongo Trio e o excelente violão de Carlos Castilho. Este, por sua vez, mostrou um lindo arranjo de "Carinhoso ". Walter Santos apresentou na ocasião alguns temas novos e Vera Brasil acompanhada do Jongo Trio levantou a plateia com "Vai João", um de seus maiores sucessos. O mesmo aconteceu com Djalma Dias, sambista que nos foi apresentado por Jair Rodrigues, o novato Taiguara e Pery Ribeiro.
Tudo corria as mil maravilhas. Som perfeito. Iluminação precisa. Os dois trios, durante todo o show no palco, se revezando nos acompanhamentos e em seus solos, executando seus sucessos. 
O público vibrava satisfeito, até que a surpresa que havíamos preparado para o gran-finale, fez a platéia explodir : Jongo e Sambalanço Trio tocam juntos, com improvisos e malabarismos musicais jamais visto até então em um palco de Bossa Nova! Pelos aplausos recebidos ao final do show, e pelo sorriso estampado no rosto do elenco, percebemos que haviamos alcançado nosso objetivo .
Até a proxima segunda feira

Nas fotos acima, Cesar Camargo Mariano , Sabá e Vera Brasil


segunda-feira, 23 de março de 2009

1966/Juão Sebastião Bar



Juão Sebastião Bar, na época de propriedade do jornalista Paulo Cotrim, era o templo da Bossa Nova em São Paulo. Por ali desfilaram grandes astros paulista da música brasileira, e os cariocas importados do "Beco das Garrafas", reduto do movimento no Rio de Janeiro. Na Major Sertório, alem do "Juão", tinha o "Ela Cravo e Canela ", por onde passaram Claudete Soares, Theo de Barros,Vera Brasil, Hermeto Pascoal, Taiguara, e muitos outros. A casa, de propriedade de um certo Petri, dava muita chance para os novatos.
Para completar, a rua abrigava  o La Licorne conhecida por suas lindas e charmosas mulheres, de vida mais ou menos difícil,capitaneadas pela famosa Laura. 
Por um  tempo, a Galeria Metrópolis, também teve "O  Jogral " do Luiz Carlos Paraná e um barzinho muito interessante, onde só se ouvia Bossa Nova, chamado "Aquela Rosa Amarela " que, por incrível que pareça, era de propriedade do locutor esportivo Silvio Luiz, que mais tarde, casou-se com a extraordinária cantora Márcia. 
Mas, voltando ao "Juão", aquele lugar espremidinho, foi ponto dos grandes da Bossa. Johnny Alf,Cesar Camargo Mariano, Marisa , Elis Regina, Zimbo e os "bicos", como eram chamados pelos músicos profissionais, aqueles que na realidade queriam mesmo, era aparecer. Um destes personagens, conhecida por Teca, nos primeiros acordes subia em uma plataforma, que existia em cima de um pequeno palco, e se punha a dançar como se fosse uma coreografia do Lennie Dale ou da Bety Faria.
O segundo andar, com visão um pouco prejudicada para o palco, era dedicado aos que, além de ouvir música,  queriam curtir um bate papo. 
E foi ali, naquele templo da Bossa Nova paulista que participei da produção do mais inusitado espetáculo de minha vida . Um "happening".
O "happening "era uma manifestação artística tendo como base música aleatória e poesia concreta, que reunia artistas de diversos segmentos em uma performance criada na hora, sem roteiros nem scripts.
Já tinha assistido algo parecido, mas na rua, quando morei em New York.
Propus ao amigo  Blota Neto  novo dono do Juão, que queria dar um "up "na casa, fazer algo diferente e ele topou.
Falei com meu irmão, o maestro Sandino Hohagen que gostou da ideia e junto com seus colegas também maestros Rogério Duprat, Damiano Cozzela e o poeta  Decio Pignatari, comandaram a maior loucura que lá se viu. Vários alunos de música do Rogerio e do Cozzela  foram convidados e se integraram ao quarteto.
Decio lia suas poesias concretas, uma vitrola tocava hinos patrióticos, Sandino regia a "nona sinfonia"de Beethoven apenas lendo a partitura, sem música..
O público começou a se entusiasmar e a interagir. De repente, vai ao palco um rapaz fazendo um discurso inflamado em alemão, Rogerio Duprat com um penico na mão fazia coleta de doações e depois jogava as moedas para o público. A imprensa, que dava ampla cobertura ao evento, também aderiu e no dia seguinte, 10/05/66 o Jornal da Tarde, a Folha de São Paulo, Última Hora e Notícias Populares, publicavam  com destaque aquela "explosão criativa".
Na parede de fundo do palco um imenso out-door da propaganda do famoso xarope São João, com a célebre frase do sujeito ameaçado de mordaça: "Largue-me. Deixe-me Gritar "

segunda-feira, 16 de março de 2009

1977/Dick Farney


 

Durante um período de minha vida profissional, em que tinha como atividade principal uma assessoria de imprensa, trabalhei com restaurantes, casas noturnas, boates, gravadoras, artistas, cirurgiões plásticos, emissoras de rádio, Rede Ferroviária Federal, enfim, não podia escolher clientes e tinha a obrigação de ser versátil e criativo, para atendê-los bem.

Muitos dos profissionais, que naquela época estiveram comigo como estagiários, hoje, com muita satisfação, os vejo como editores, colunistas, enfim bem sucedidos em suas profissões.

Alguns desses clientes faziam questão de serem atendidos pessoalmente por mim ou pelo Haya, meu irmão e sócio. Outros, nós é que fazíamos questão de atendê-los. Por exemplo, a Rede Ferroviária Federal, cliente que nos foi indicado pelo amigo Samir Razuk,  na época  superintendente comercial da rede Bandeirantes de Rádio, também nossa cliente, era atendida pela saudosa jornalista Gisela Bisordi.Era um trabalho bem difícil, mas não para ela, muito competente e paciente.

Restaurantes, geralmente, queriam nos ver na casa com freqüência, almoçando ou jantando. O mesmo acontecia com as casas noturnas, que só nos interessava freqüentar, quando tinham atrações musicais do nosso gosto.

Na Rua Santa Izabel, nessa época, tínhamos um cliente,  uma “boate” (o que hoje não existe mais naqueles moldes) chamada “Chez Regine”. Essas casas começavam a funcionar perto da meia noite e eram reduto de boêmios endinheirados e refúgio de amantes. Tinham um ambiente bem escuro, e a maioria era dominada por uns 3 ou 4 empresários da noite, muitos deles “laranjas”. Uísque falsificado era o que rolava solto e a maioria não servia comida. Uns amendoins, pipocas e olhe lá. A única coisa de honesta que essas casas tinham, era a música. Ah isso sim! Sorte minha, lá no “Chez Regine”, estava contratado Dick Farney que, com  Sabá no contrabaixo e o Toninho Pinheiro na bateria compunham um trio.

Sabá e Toninho, já  conhecia do Jongo Trio, do Dick era fã de carteirinha, mas nunca o tinha visto pessoalmente. Conhecia muitas histórias a respeito de sua carreira, e apreciava muito seu repertório e  estilo. Quando tocava jazz ao piano, lembrava bastante o som de Dave Brubeck, cantando, lembrava Sinatra. Sua voz romântica dava um tempero especial a interpretações de “Alguém como Tu “e “Copacabana”.

Dick nasceu Farnésio Dutra da Silva, e seu pai era músico e dono de um laboratório no Rio de Janeiro, que fabricava a famosa “Matricária”, pozinho que as mães passavam, e até hoje passam, nas gengivas de seus bebês para aliviar as dores causadas pelo nascimento dos dentes. Os primeiros contatos com a música recebeu de seu pai. Contavam seus amigos, que Dick, tinha “ouvido absoluto”, ou seja, reconhecia notas musicais e tonalidades em qualquer ruído. Uma das histórias que se conta sobre ele, é que quando aprontava alguma arte e seu pai o reprimia com algumas cintadas,  gritava em que tom apanhava...

Quando, por causa de meu trabalho, minhas idas ficaram mais freqüentes ao Chez Regine, passamos a conversar mais e nos tornarmos mais íntimos. Percebemos então, que tínhamos pontos em comum: nosso gosto musical, era praticamente o mesmo, éramos divorciados, estávamos no segundo casamento e amávamos nossas atuais esposas. Cheguei a presenteá-lo com um LP de Bill Evans, aonde ele toca “I Love My Wife”. Ele adorou e incluiu a música em seu repertório. Mas o que ele mais gostava de comentar,  era o dia que terminaria sua obrigação de pagar pensão para a ex. Dizia-me que tinha um mural em sua casa, lá na represa de Eldorado, no formato de calendário, em que passava um x em cada dia que acabava. Fazia  com gosto!

Guardo boas recordações do Dick... Quando fizemos o dono do restaurante Antonio’s comprar um piano decente, já que queria te-lo abrilhantando seu jantar, de um show que fez para alta sociedade de Araraquara e que foi durante muito tempo comentado na cidade, e um aniversário seu, no qual fiz–lhe uma surpresa, trazendo o excelente saxofonista argentino radicado no Brasil e que fez parte de seu quarteto, Hector Costita. Combinamos com Sabá e Toninho e com o próprio Costita . A um sinal meu, Sabá  sugeriu que tocassem Tangerine, um de seus números preferidos. Aos primeiros acordes, Costita entrou pela “boate” adentro, e ficaram pelo menos 1 hora improvisando, no mais puro jazz. Ao final, ovacionados, puxamos o côro de “parabéns a você”.

Foi muito bom!. Pena que Dick tenha partido tão prematuramente. Tinha apenas 65 anos!