quinta-feira, 4 de março de 2010

2010/Sebastião Oliveira da Paz


Era uma figura realmente interessante. Voz suave, tranqüilo,sempre bem humorado e um bom contador de historias. Eu o conheci em 1964 durante as "Noites de Bossa"que produzíamos no Teatro de Arena.
Me chamou a atenção a maneira como tratava o seu baixo acústico, instrumento que dominava com maestria.
A sua precisão para afinar, a delicadeza como usava o arco quando os arranjos exigiam, os toques firmes de seus dedos nas cordas, chamavam a atenção daqueles que gostavam de um bom jazz ou de um número de bossa nova.
Passei a segui-lo. Fizemos muitos shows juntos. Cezar Mariano, Jongo Trio, Dick Farney foram alguns companheiros musicais.
Na Rádio Jovem Pan teve um programa de música popular brasileira e depois fez o mesmo na Rádio Trianon. Eram verdadeiras aulas. Com excelente dicção, causava inveja a muitos dos apresentadores dessas emissoras, aonde era muito querido e respeitado.
Um dos últimos contatos que tive com Sabá foi na Av. Paulista.
Caminhava muito a vontade, calçava sandálias e tive que me aproximar bem dele para que me reconhecesse. Usava lentes bem grossas numa clara evidência que sua visão não era a mesma.
Conversamos um pouco, relembramos o passado e nos despedimos.
No último dia 23 de fevereiro, Sabá se foi, e certamente junto a Dick Farney e Toninho Pinheiro estão arrasando com seu som. Pena que agora só para os anjos!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Feliz 2010!!

Desejo a todos que acompanham o "contosdolafa"um alegre natal e um feliz ano novo.
Voltaremos a partir de março de 2010.

domingo, 1 de novembro de 2009

1967/Justiça de Salomão


Foi na inauguração da TV Bandeirantes que o programa “Justiça de Salomão”entrou no ar sob o comando de Salomão Esper. Na produção do programa feras como Alvaro Moya, Rebello Jr., Clodoaldo José, Nicéias e Haya Hohagen. Direção de tv de Ivan Magalhães e os câmeras Pedro Umberto, Alan Kardec e o saudoso Botini.

Conhecemos Salomão durante a campanha eleitoral realizada em 1966, quando Haya e eu fomos responsáveis pelo setor de rádio e tv da ARENA partido do governo. Foi por causa de seu pequeno, mas eficiente “estúdio”, que ficava nos porões da Rádio América, na rua da Consolação esquina com av. Ipiranga, aonde hoje está o Edificio Zarvos. Lá eram gravados e copiados spots e material de candidatos, que eram enviados para outras cidades. Foi o amigo Berto Filho, locutor dos mais requisitados na época, quem nos indicou o “Publisol”, nome do estudio que tinha como sócios Salomão e o espanhol José Velazco. Acabada a campanha eleitoral, ficou a amizade.

Durante o período em que o programa ficou no ar, houve uma convivência grande de Haya com Salomão. Além das conversas diárias, todas as terças feiras, dia do programa, Haya almoçava na casa de Salomão. Era quando discutiam e acertavam detalhes do programa. Sempre após o almoço, Salomão pedia licença, e subia para seu quarto fazer a sua “siesta”. Haya o aguardava, enquanto finalizava o roteiro do programa. A essa altura, Haya dirigia sozinho o “Justiça”.

O programa estava entre os melhores de entrevistas da televisão. Salomão no comando, mostrava muita competência e preparo. Algumas entrevistas ficaram famosas, como a que fez com o superintendente do Hospital das Clinicas de São Paulo, por ocasião do primeiro enxerto de mão feito no Brasil; a entrevista com Moraes Sarmento, na época a maior audiência do rádio paulista, que comoveu os espectadores; a com Blota Jr, que comentou fatos pitorescos de sua carreira; além de muitos políticos, gente do povo como o jogador de sinuca “Carne Frita”, curiosidades como representantes de associações de inventores e de mágicos, enfim enquanto durou foi um sucesso.

Salomão sempre tratou seus entrevistados com a mesma importância, afinal, eram eles as estrelas de seu programa. As perguntas eram sempre as que, com certeza, o telespectador faria.

Na Bandeirantes sempre teve o respeito do “seu João”, que o convocava toda vez que uma autoridade visitava a emissora. Era o mestre de cerimônia de todas as ocasiões.

Hoje aos 80 anos, ao lado de Joelmir Betting e José Paulo de Andrade, participa do Jornal da Bandeirantes Gente das 8 às 10 da manhã, com intervenções brilhantes, que são verdadeiras aulas.

Chega todos os dias bem cedo na emissora com sua pilha de jornais debaixo do braço e sua sacolinha contendo bananas e biscoitos de povilho. Continua a ser o mesmo “Saloma” bem humorado, de bem com a vida e a disposição dos amigos.

Tivemos, Haya e eu o prazer de, junto com nossas esposas, sermos convidados a participar da homenagem que os filhos, Sergio, Márcia e Ana Ligia fizeram ao querido Salomão.

Um almoço cheio de emoção, onde muitos compareceram para o abraço de parabéns ao querido amigo, confirmando a simpatia e bom humor, tão característicos da personalidade de quem soube chegar a maturidade sem perder o brilho e o encanto da juventude.

Aliás, neste almoço, fez questão de dar uma canja, e fazendo dueto com Nelson Gonçalves, cantou o samba onde nos confirma sua filosofia de vida, rica de amigos, cheia de simplicidade e de sabedoria: ”mas depois que o tempo passar, sem que ninguém vai se lembrar que fui embora,por isso é que eu canto assim, se alguem quiser fazer por mim, que faça agora”.

Na foto acima,em primeiro plano Haya Hohagen e ao fundo Salomão Esper conversa com Blota Jr. momentos antes de "Justiça de Salomão entrar no ar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

1967/Roberto Isnard


Durante o período em que trabalhei na Ultragaz, fiz alguns amigos, muitos em função de minha atividade. Lidava com pessoal de imprensa e publicidade. Ora estava dentro de um estúdio acompanhando a gravação de “spots e jingles”, ora em estúdio de tv, verificando se os cenários do “Ultranotícias” estavam em ordem. Não faltavam também os encontros com o pessoal de imprensa, já que não raro, aconteciam explosões de botijões de gás e, como nosso superintendente era também presidente da Associgás, eu era convocado para organizar coletivas onde ele dava as explicações sobre os acidentes, que eram provocados por produtos adquiridos em depósitos clandestinos.

Na época havia uma forte concorrência entre a Ultragáz e a Liquigáz. Era uma verdadeira guerra entre elas e as concorrentes nanicas, bem ao estilo da guerra dos refrigerantes existente entre Coca Cola/ Pepsi Cola e as “Tubainas”.

A briga pelo mercado do gás engarrafado era muito grande. A Ultragáz levava vantagem, pois além de distribuir o produto, tinha uma grande rede de lojas pelo interior, que vendia eletrodomésticos, sendo o fogão a gás o seu principal produto além dos botijões, claro.

Peri Igel era o presidente da Ultragáz e tinha um colaborador bastante conhecido da imprensa. Era o radioamador Roberto Isnard. Ele tinha funções de relações públicas e era muito querido pelos companheiros de trabalho. Já tinha ouvido falar em Roberto Isnard. Era deficiente visual e seu hobby era o radioamadorismo. Já o tinha visto em programas de tv falando sobre o assunto.

Certo dia, fui chamado a seu gabinete para combinarmos a realização de um almoço com a imprensa para homenagear a jornalista Helle Alves, dos Diarios Associados, a única brasileira presente quando da captura de Che Guevara na Bolivia, matéria que foi ao ar no Ultranotícias com muito destaque.

Nunca havia conversado com Roberto e nem sabia que ele trabalhava na Ultragáz. Ficamos bastante tempo falando sobre radioamadorismo, antes de entrar no assunto principal, que era a homenagem a jornalista.

Tinha em minha lembrança um dos filmes mais comoventes que assisti em toda a minha vida, que foi “Se todos os homens do mundo”. Filme francês da fase do “cinema realista” onde seu diretor Christian Jacque retratou, com muita competência, o drama vivido por tripulantes de um barco pesqueiro, acometidos por botulismo, doença provocada pela ingestão de carne deteriorada. Apenas um dos tripulantes estava são e conseguiu passar por rádio uma mensagem de socorro que foi captada por um radio amador, que fez contatos com outros, formando uma corrente internacional, que possibilitou que chegasse aos tripulantes um soro salvador. Um filme cujo tema era a solidariedade, e devia ser exibido nos dias de hoje.

Comentava com Roberto a beleza do filme, e senti nele uma vontade muito grande de falar a respeito do radioamadorismo e de sua atuação. Foi quando me relatou o trabalho que os radioamadores brasileiros desempenharam em 1960 durante o rompimento do açude de Orós no Ceará.

Depois vim a saber da dedicação e participação de Roberto Isnard na ajuda aos moradores da região aonde aconteceu a tragédia, o que lhe rendeu várias homenagens. Roberto também me emocionou.

Passei a frequentar a sala de Roberto e tivemos alí longos e agradáveis papos. Era extremamente bem relacionado e tinha sempre uma história pra contar.

Certa vez fui procurado por uma colega de trabalho, que me comunicou que Roberto seria homenageado no programa “Esta é a sua vida”, comandado pelo jornalista Carlos Gaspar na TV Tupí, e gostaria que eu participasse. Claro que me coloquei a disposicão. Recebí a visita de um dos produtores do programa, passei algumas informações sobre Roberto e no final da conversa entrou em minha sala o Haya meu irmão gêmeo, que tinha ido me buscar no trabalho. Na hora esse produtor teve a idéia de convidar meu irmão para participat também do programa, pois queria fazer uma brincadeira com o Roberto. Só pra lembrar, Haya e eu somos gêmeos idênticos.Temos o mesmo timbre de voz, até nossa mãe nos confundia ao telefone e por várias vezes quando fazíamos programas de rádio juntos, e um de nós saia do estúdio por algum motivo, o outro falava pelos dois. Fomos os dois aos estúdio da TV Tupí no dia do programa como combinado. Roberto estava conosco na platéia, pois havia sido informado que o homenageado era Henning Boilesen, superintendente da Ultragáz. Carlos Gaspar abre o programa, faz todo aquele blábláblá e em vez de Boilesen chama Roberto Isnard dando ênfase a apresentação “E Roberto Isnard ...essa é a sua vida!” Aplausos e Roberto acompanhado por um dos produtores sobe ao palco e alí começa o programa .

Muitos convidados que por algum motivo tinham alguma ligação com Roberto eram chamados para homenagea-lo. Foi quando Carlos Gaspar me chamou e, em vez de eu ir ao encontro de Roberto, foi meu irmão, empurrado por um dos produtores. Haya disse algumas palavras a Roberto que imediatamente retrucou...”Mas esse não é o Lafayette”, em seguida adentrei ao palco e a platéia aplaudiu admirada. Roberto, não sei como, sabia de meu hábito de usar gravatas coloridas, e respondeu com muito humor a Carlos Gaspar, como havia distinguido minha voz, uma vez que nem minha mãe conseguia: “Foi pela cor da gravata”. Roberto Isnard é uma dessas pessoas raras de se encontrar nos dias atuais.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

1966/Blota&Sonia

O período em que trabalhamos na Rádio e Tv Record, foi muito proveitoso em muitos sentidos. Profissionalmente foi o período do aprendizado. Vínhamos do teatro, aonde fazíamos praticamente tudo. Iluminação, direção de cena, produção musical etc.etc.

Na tv é diferente, cada um desses ítens tem um profissional da área. A nossa função era a de criar e outros executavam.

No Blota Jr. Show, nossa primeira experiência televisiva, o nosso trabalho era o de sugerir entrevistas para o comandante do programa, preparar a ficha dos entrevistado com seu perfil e as perguntas que seriam interessantes de se fazer. Esse trabalho era dividido pela equipe, ficando para o apresentador o contato direto com os entrevistados especiais, tais como políticos e figuras de maior relevância.

Lembro-me de uma entrevista que Blota Jr. fez com um indíviduo de nome Aladino Felix, também conhecido como Sábato Dinotos, que dizia ter traduzido as profecias de Nostradamus. Ele era meio estranho e tempos depois apareceu nos noticiários acusado de terrorismo. Durante a entrevista, Blota teve que cortá-lo chamando os comerciais, quando começou a profetizar que “o homem de barro seria expulso e daria lugar ao homem de natal” interpretando o livro de Nostradamus, querendo dizer que Adhemar de Barros, governador de São Paulo na época, seria cassado e em seu lugar, assumiria Laudo Natel.

Bem, a verdade, é que a cassação de Adhemar de Barros aconteceu e Laudo Natel, que era seu vice, assumiu o governo do Estado de São Paulo em 6 de junho de 1966. Sábato Dinoto esteve preso no Dops de onde desapareceu .

Não me lembro quem convidou Sábato Dinotos para o ”Blota Jr. Show“, só me lembro que o” Dr.”, como era carinhosamente chamado o “chefe”, distribuiu bronca pra todo mundo.

Aconteceram passagens muito curiosas durante a nossa permanência na Record. O ambiente era de muita camaradagem entre os companheiros. Tínhamos uma associação de funcionários, que colocava a nossa disposição colônia de férias, empréstimos financeiros, vendas de produtos a preços de fabrica, em fim, quem trabalhava na Record trabalhava feliz.

Além de trabalharmos na Tv, tínhamos um programa de rádio diário, que entrava no ar por volta das 23 horas. Numa atitude pouco comum na época, o salário em espécie e em dia, era recebido durante o horário do programa de rádio. A Record era líder de audiência e tinha uma situação financeira bem saudável .

Foi lá que nasceu, numa iniciativa dos funcionários, a prática do “showbol” no espaço aonde era gravado o Circo do Arrelia. Juntavam produtores, apresentadores, funcionários de todos os níveis para, até altas horas da noite, baterem aquela bola.

Uma das lembranças que guardo daquela época, foi um sorteio que a nossa associação fez de um fusca zero, para todos os funcionários da emissora, durante uma festa de aniversário da Record. Pra variar, chamaram o casal mais famoso e respeitado da TV na época, Blota Jr e sua esposa Sonia Ribeiro, para comandarem o sorteio. Eles eram os mestres de cerimônias de todos os festivais, shows do dia 7, e foram os precurssores das famosas duplas, que até hoje são utilizadas, nos principais programas de nossa TV.

O pessoal já estava impaciente quando Blota e Sonia começaram o sorteio, que tinha muitos brindes antes de chegar ao prêmio maior: o sonho de dez entre dez brasileitos - o fusca zerinho.Depois de muito suspense, Blota anuncia: ”E o fusca vai para o número ...tal!” Todo mundo procura o número tal, e surpresa, o número sorteado era o de Sonia Ribeiro! Tumulto geral, vaias, assobios, gritos de “marmelada”, até que Blota com o microfone em punho acalma o pessoal e anuncia: “Pessoal acho justo que, como a Sonia ganhou o prêmio, ela fique com ele, mas para mostrar a vocês o quanto admiro a todos os companheiros, prometo que sábado que vem, aqui mesmo, estarei sorteando um de meus carros!” Com esse anúncio, a euforia tomou conta de todos presentes, afinal, Blota só desfilava de Mercedes Benz ! A imaginação correu solta, era conversa por todo lado, durante a semana, nos corredores era o único assunto, todos queriam adivinhar qual dos Mercedes o” Dr.” ia sortear.

Conforme o prometido, no sábado seguinte, todos reunidos no páteo e Blota anuncia o sorteio. O carro a ser sorteado adentra o páteo envolto em uma nuvem de fumaça, provocada pelo óleo colocado propositadamente no carburador pelos seus ocupantes, que eram Blota Neto, filho de Blota e Bruninho um de seus assessores. O carro, um Dodge ano 1941 que Blota havia comprado de um funcionário da Secretaria de Turismo para ajudá-lo, por este se encontrar numa situação financeira dificil . A gargalhada foi geral!

A jornalista Lyba Fridman, assessora de comunicação da Record, foi a sorteada. E o que para muitos parecia um “mico”, serviu para tirar a jornalista de um tremendo sufoco. Lyba vendeu seu prêmio para um desmanche e com o dinheiro, conseguiu quitar uma dívida na justiça, cujo prazo se expirava no dia seguinte. Sempre foi grata a Blota Jr. pela atitude que, de uma brincadeira, salvou-a de uma situação difícil.

Lyba foi também, uma das responsáveis pela divulgação de vários trabalhos que realizamos, durante os anos de ouro da bossa nova. Era colunista de rádio, tv e shows e trabalhou nas principais revistas especializadas.

Blota Jr., apesar de não termos tido uma convivência maior, foi uma pessoa que sempre admirei, assim como Dna Sonia Ribeiro, que foi, sem dúvida, a primeira dama da televisão brasileira por sua postura,classe e elegância.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

1938/Rio de Janeiro

Contam que, por volta das 23 horas do dia 28 de setembro, a gaucha de 22 anos de nome Maria de Lourdes, casada com o jornalista peruano Guillermo, começou a sentir sinais de parto. Imediatamente foi acionada a parteira da família que, em poucos minutos, chegava ao casarão da Rua Rainha Elizabeth 105, no bairro de Copacabana. Muito calma, relataram as testemunhas na época, Maria de Lourdes tranquilizava as pessoas a sua volta. Fazia questão de dizer que não sentia dor alguma, apesar das contrações. Sua barriga era bem avantajada.

Na época, o sexo do bêbe era conhecido ou na hora do nascimento, ou através de adivinhações tipo duas tesouras embaixo da almofada de um sofá, uma aberta e a outra fechada e pedia-se a parturiente que escolhesse um lugar para sentar. Se o escolhido fosse o da tesoura fechada era menino, se fosse aberta menina.

Na casa, habitada por Maria e Guillermo, o primogênito Benjamim Sandino, reinava absoluto há 1 ano e 4 meses. Com o casal, morava também o Tio José, irmão de Cecilia mãe de Maria. José havia se desquitado de Izabel, uma francesa com quem havia se casado durante o tempo que morou na França. Guillermo por conta de suas atividades jornalisticas, era correspondente do jornal Diretrizes de Buenos Aires, viajava muito e Tio José fazia companhia para Maria. Cozinheira, copeira, chofer,e babás completavam a população da casa.

Às 23.30 horas, segundo o cartório de registro da Lagoa Rodrigo de Freitas, Maria deu a luz ao primeiro filho. Sim eram 2. Quando o Dr.Saladino, médico da familia chegou, o segundo bebê se esforçava para sair, o que aconteceu 15 minutos depois. Contam que foi uma verdadeira festa. Guillermo, que regressou de Buenos Aires dois dias depois, ficou bastante emocionado. Depois da poeira abaixada, e como acontece até hoje nas melhores famílias, começou a discussão para a escolha dos nomes que seriam dado aos dois.

Maria queria que um dos filhos fosse um batizado por seus tios e, com isso, colocar num dos gêmeos o nome dele. Guillermo com suas tendências políticas, queria homenagear algum de seus ídolos. Com o primogênito, haviam resolvido da seguinte maneira: Benjamim era o nome do querido avô de Maria e Sandino era um revolucionário nicaraguense por quem Guillermo tinha simpatia. Assunto resolvido Benjamim Sandino.

Tio Lafayette e Tia Regina eram tios queridos de Maria, que fez questão de dar-lhes o filho para batismo e ainda colocar o nome do tio em um dos filinhos, no que Guillermo complementou com o nome de um poeta e revolucionário cubano de nome José Martí. Resolvido o segundo problema. Um dos gêmeos foi batizado com o nome de Lafayette José Martí Hohagen. Restava o outro gêmeo, que Maria já desgastada com tanto nome para escolher, deu a Guillermo para que ele resolvesse. Resolveu. Victor Raul Haya, nome do chefe do partido Aprista peruano, e que veio ao Brasil no anos 50 para efetivar o batizado. Mais tarde, com Guillermo assumindo as funções de nomear os filhos, vieram Simon Bolivar(que não resistiu ao parto) e Maria Adilia em homenagem a avó paterna.

Esse foi o início de tudo. Agora, ao completar 71 anos, deixo esse relato e ilustro com algumas fotos essa minha trajetória, muito dela já contada nesse meu blog de memórias. Nas fotos do “slide show” abaixo, será notada a presença do Tio José, que foi sempre o grande companheiro que tivemos até o fim de sua vida.Era o nosso Pepe, como o chamava meu pai, e José, como nós o tratávamos. Supriu a ausência do querido “papito” que, por força de profissão, muitas vezes ficava meses em viagens e que, se vivo, com certeza teria um blog aonde narraria as muitas aventuras vividas durante a sua vida.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

1969/Galeria Metrópole

Nos anos 60, a cidade de São Paulo era rica em galerias. Eram bem frequentadas como hoje são os shoppings, mas menos elitistas. Eram democráticos e sem ostentação.

Tínhamos e ainda temos, a Galeria Guatapará, Olido, Califórnia, Itapetininga, Nova Barão, R. Monteiro, Grandes Galerias (Galeria do Rock), Ipê, 7 de Abril, Metrópole e outra reminicentes desta época.

Todas ainda charmosas, aonde se encontram ítens únicos, não encontrados em nenhum outro lugar. Aliás, este diferencial as galerias ainda conservam dos anos 60. Lembro-me que comprávamos lâminas de barbear inglesas Wilkson, ou cigarros Phillips Morris com filtro de carvão , perfumes e radinhos de pilhas importados nas galerias do centro da cidade.

A Galeria Califórnia abrigava também um famoso estúdio de gravação, o Magisom, de Gilberto Martins, um dos maiores produtores de jingles do Brasil e aonde meu amigo Berto Filho, com sua incomparável voz, valorizou várias campanhas para rádio e tv. Até eu que integrava um quarteto vocal junto com meu irmão Haya e dois amigos ,gravamos um acetato no Magisom.

O grande diferencial das galerias, é que elas te levam de uma rua para outra ou seja, você faz o percursso por elas para abreviar a caminhada, e ainda usufrui das vitrines de suas lojas.

Tinha também aquelas que eram mais voltadas aos barzinhos, que proliferavam na época da bossa nova. Qualquer barzinho por menor que fosse, tinha um cantinho, um banquinho, um foco de luz e, claro, um violão. Nada de play-backs, como hoje se vê nos botecos da cidade. Começavam a trabalhar por volta das 18 horas e o cast de músicos era bem grande. Havia uma certa rotatividade. O mesmo músico, tocava em vários barzinhos por noite.

Na Galeria Metrópole, Plinio Marcos lançou sua primeira peça no “Ponto de Encontro”, um mixto de livraria e barzinho: “Dois Perdidos Numa Noite Suja”. Na platéia, pasmem, apenas 6 espectadores. Graças a absurda repressão de nossa ditadura, este incrível trabalho do Plínio, tornou-se texto obrigatório nas platéias brasileiras. A mordaça virou contra o repressor.

Um dos pontos mais frequentados era o Chá Moon, uma casa de chá charmosa e bem frequentada. A partir das 3 horas, começava o movimento. Era um ambiente calmo, excelente para um primeiro encontro, o tão ingles chá das 5, ou mesmo o “scotch”das 6.

Na Metrópole, o forte mesmo eram os barzinhos. Havia pelo menos uns 25. Lembro-me de alguns como o Barroquinho, Barquinho’s Drink, Esquilo’s, Le Club, e o mais famoso de todos,“O Jogral”, do Luiz Carlos Paraná. Lá desfilavam ícones como Leila Diniz, Caetano Veloso, Chico Buarque, Jorge Ben, e a maioria dos músicos, que ao sairem de seus trabalhos iam dar uma “canja” - lembrem-se, eles ainda não viviam de sua arte, todos em início de carreira. Eram grupos inusitados e davam um verdadeiro show de bossa e jazz. A platéia, quase sempre formada por colegas de trabalho.

Tive ainda a oportunidade de participar de um pocket show com Lennie Dale e o Sambalanço Trio, fazendo a iluminação do show. Fomos chamados as pressas e ainda nos deram a incumbência de conseguir um patinho, sim um filhote de pato, pois o Lennie num de seus números cantava “O Pato”, e tinha criado uma ação que, ao iniciar a música usava a pequenina ave. Um garçom trazia uma bandeja com uma taça de “dry martrini”com o patinho dentro, coberto com um guardanapo, ao passar pelo Lennie, ele abruptamente levantava o guardanapo e exclamava “O Pato!” e continuava...vinha cantando alegremente quemquem... O duro foi conseguir o tal patinho. Só achamos no Mercado Central. Mas valeu pois de fato deu um efeito prá lá de especial ao número.

E foi ainda na Galeria Metrópole, no” Jogral”, que Oscar Petterson deu uma “canja unforgettable “. Chegou de repente, levado não se sabe por quem, causando o maior alvoroço. Geraldo Cunha cantava e tocava o violão quando o canadense, sem nenhuma timidez, sentou-se ao piano e aconteceu talvez a maior jam-session que a cidade teve notícia.




terça-feira, 15 de setembro de 2009

1957/Migueleto

Outro dia, lendo um post no blog de meu amigo Marcio Macedo www.newyorkibe.blogspot.com, em que aborda o tema “moda”, fui levado de volta ao tempo em que morava em Manhattan .

Ansioso por encontrar um patrício e amenizar assim as saudades que sentia de casa, ficava observando as vestimentas das pessoas nas ruas, cafeterias, elevadores , metrô. Nos homens procurava notar o feitio de suas roupas e nas mulheres além das roupas o feitio de seus corpos. E foi assim que encontrei alguns brasileiros que por lá andavam e até fiz algumas boas amizades.

Na época, no Brasil, a moda masculina tinha uma caracteristica: o corte acinturado tanto para camisas como para paletós. As mangas dos paletós era mais curtas para que os punhos das camisas , quase sempre ornamentados com vistosas aboaturas, pudessem aparecer. Já lá nos “states”os paletós e blaisers tinham um corte reto com 3 botões e duas aberturas na trazeira. Abotoava-se os dois botões de cima para baixo ficando o terceiro livre. As mangas tinham normalmente o comprimento dos braços, o que tornava para mim uma dificuldade comprar algo sem precisar reformar, uma vez que com minha estatura média de brasileiro, as mangas de camisas ou paletos quase chegavam nos joelhos.

Às mulheres americanas com certeza faltava o charme e a graça da mulher brasileira, além do que pareciam tábuas, tal a falta das curvas tão notadas em nossas compatriotas. Acho que era até mais fácil distinguir uma brasileira no meio delas, do que achar um brasileiro no meio daqueles branquelos de pernas longas e braços compridos.

Na minha busca “trombei” com o mineiro Migueleto. Não me lembro de seu primeiro nome, talvez até porque ele nunca o tenha mencionado, mas o seu paletó cinturado e os punhos de sua camisa ornamentados com vistosas abotoaduras, o identificaram como brasileiro na minha primeira olhada.

Aconteceu numa tarde quando caminhava pela Broadway em direção a estação do metrô da rua 72, e ví o tipo caminhando e seguindo com olhares provocantes todas as mulheres que por ele passavam (mais uma caracteristica brasileira). Vestia um terno risca de giz acinturado, abotoaduras vistosas e não tive dúvidas fui logo indagando com tom afirmativo “você é brasileiro?” Sou ! veio rápida a resposta e dai o inicio de uma grande amizade, que durou por todo o tempo em que lá morei.

Migueleto era fisicamente um tipo bem diferente. Muito feio para qualquer padrão de beleza. Seu cabelo lembrava um rato pelado, desengonçado e magrelo.

Sem dúvida tinha um charme que tocava as mulheres. Quando alguem combinava uma “party”no final de semana, tinha que convidar Migueleto...e suas amigas. Era sucesso garantido, a ponto de numa dessas, convidaram o próprio e suas amigas, mas esqueceram de convidar um número razoável de amigos. Resultado? 30 mulheres e 12 homens num apartamento novaiorquino de 50 metros . Fracasso total da festinha pelo total desequilibrio das partes. Nessa festinha particularmente, tive que assumir o interfone, e a cada chamado que recebia do portão de entrada, quando a voz era feminina perguntando por Mr. Migueleto já respondia “we got no Mr. Migueleto in this apartment”, na esperança de salvar a noite. Mas foi tudo em vão, pois as convidadas do amigo que chegaram a entrar na festinha, ao reparar o “score” iam, aos poucos e sorrateiramente se retirando daquilo que para elas era um verdadeiro”mico”.

Numa outra ocasião, durante um evento no Central Park que apresentava um festival de quartetos vocais o“Barber Shop Quartet Festival”, Migueleto aprontou mais uma. Telefonou-me fazendo um convite - ”Carioca você vai hoje ouvir o melhor da música tradicional americana. São quartetos vocais exclusivamente formados por barbeiros e cantam muito!” Eu me entusiasmei, e ansioso me dirigi ao encontro do amigo, que morava a poucas quadras de minha casa, no west side, em um prédio meio decaido que, naturalmente, não existe mais. Esperei como que uns 30 minutos até que desisti e fui sozinho para o Central Park. O local eu já conhecia, pois ficava próximo do rink de patinação que eu costumava frequentar. Cheguei com o festival já iniciado e bem concorrido. Muita gente. Me arrumei e curti . Foi de fato uma tarde inesquecível, pessoas de vários cantos do país demonstrando suas qualidades musicais, sendo que na realidade, eram todos de fato barbeiros. Era uma tradição. Não sei se ainda existem esses festivais. Enriqueci minha discoteca com vários lps do gênero, depois daquela apresentação. Mas e Migueleto? Na minha volta para casa, ao sair do Central Park, observei um grupinho de umas 10 pessoas, a maioria mulherers que riam, davam gritinhos, cena comum que não chamaria a atenção de nenhum morador daquela cidade, fui me aproximando e me deparei com meu amigo Migueleto acompanhado de um macaquinho amestrado, que fazia graça e truques. Não entendi nada, até receber do amigo a justificativa pelo “cano”e o que representava todo aquele circo. “Acontece meu amigo Carioca, que a mulher americana é louca por qualquer bichinho de estimação, e uma amiga dona desse bichinho, me pediu um grande favor de dar uma voltinha para que ele tomasse um ar. Não podia negar-lhe o pedido. O que não esperava era ter todo esse sucesso. Fica tranquil, que estamos com a noite garantida”.

Esse era meu amigo Migueleto. Um sucesso com as mulheres, e que com sua tremenda “cara de pau “ conseguia abrir várias portas. Foi ele quem me apresentou a um dos maiores músicos de jazz que tive oportunidade de conhecer. O baterista e lider do grupo The Messengers , Art Blakey. Foi num barzinho no Village, aonde Art Blakey se apresentava todos os sábados, a partir das 5 horas da tarde. Pareciam amigos de longa data. Não entendia como o músico americano conseguia se comunicar com alguém falando tão mal o inglês. Tínhamos sempre uma mesa reservada quando das apresentações do grupo de jazz de Art Blakey. Migueleto chegou a ir umas 2 ou 3 vezes, mas eu me tornei assíduo frequentador. Sozinho ou com algum amigo que curtisse o som do jazz. Por uma incrivel coincidência, muitos anos depois, creio que no final dos anos 80, o músico americano veio ao Brasil e ficou hospedado na casa de minha prima Baby Consuelo, hoje Baby do Brasil, de quem tinha se tornado grande amigo.