terça-feira, 14 de junho de 2022

1954/Cayru FC



 

 

Por algum tempo as areias brancas da praia de Copacabana, no posto 6, fizeram parte da minha infância. Foi lá que dei meus primeiros chutes em uma bola. Engraçado é que não consigo me lembrar de nenhuma bola que tenha ganhado nessa época da vida. Lembro-me de carros de pedalar, velocípedes, aviões que se entrava dentro, carrinhos de corda, bicicletas, mas nada de bola... Acho que brincávamos com bolas de amiguinhos da Raul Pompéia, onde morávamos, ou mesmo de meninos que encontrávamos na praia.

 Bola não era um brinquedo comum. Alias, havia  restrições a esse brinquedo. Várias eram as razões.  Causavam transtornos os chutes, totalmente sem direção, além de que, o futebol não era bem aceito pelos pais mais severos.

Quem sempre era visto na praia jogando futebol, era o pessoal que descia do morro do Cantagalo para intermináveis peladas, que se estendiam até o pôr do sol. Claro que tudo muito disputado, e recheado de palavrões e bofetes. Definitivamente, não era um brinquedo para meninos de boa família, alem do que, os noticiários esportivos colaboravam com notas sobre jogadores mal educados, como Heleno de Freitas. “

Onde já se viu? Aquele jogador fez gestos obscenos no estádio!” ouvia minha avó comentando com minha mãe...

O tempo caminhou, nossa família foi atingida pela crise da segunda guerra mundial e,  depois de perder tudo, resolveu vir para São Paulo recomeçar a vida. Alias recomeçar para os adultos. Para mim, era apenas o começo. Era dezembro de 1949.

Depois de passarmos por uma pensão na Al. Barros e outra na Domingo de Morais, finalmente conseguimos alugar um sobradinho na zona norte, em um bairro que estava se formando: Santa Terezinha. Era uma antiga chácara dos padres Salesianos, que foi loteada e transformada num bairro. Era uma maravilha!  Ar puro, calçadas de terra batida, tinha um ar de férias permanentes. Lembrava-me as férias que passávamos em Boca do Mato, no interior do Rio de Janeiro. Isso foi em 1952. Eu tinha 14 anos.

Ouvia às vezes minha mãe comentar, sem lamentos, do tudo que tivera. Carros , choferes, empregados e agora estávamos “recomeçando tudo de novo “.

Eu e meus irmãos estávamos curtindo muito. Fizemos amigos e jogávamos muita bola. Haya e eu. A rua em que morávamos, chamava-se Estrada do Bispo.

Sandino, o mais velho era mais intelectual, voltado para seus estudos de música, sempre desprezou os nossos “rachas”,e Adília, a irmã caçula, gostava de andar de bicicleta e, em Santa Terezinha, tinha muito lugar para isso.

Como havia muitos terrenos baldios na vizinhança, juntávamos os amigos, que já eram muitos, e de enxada em punho, íamos construindo nossos “campinhos”.

Em casa, não havia mais a discriminação ao esporte.

Tínhamos que cumprir as nossas obrigações de escola e de casa, depois podíamos jogar nossa bolinha.“ Sem exageros “,sempre recomendava meu pai. Mas, quem queria obedecer a esta recomendação?

Tanto meu pai como minha mãe trabalhavam nessa época no jornal “ O Tempo “.

Saiam cedo de casa para o trabalho e nós para a escola. Voltávamos todos para o almoço, uma vez que não era hábito comer fora de casa, a não ser numa situação excepcional. Eles retornavam para o trabalho e nós... para o campinho jogar bola!

Jogávamos com sol, com chuva, gripados e até com caxumba. Era uma fixação.

Sonhava  jogar em um time com camisa. Time da várzea mesmo. Não demorou e apareceu o jogo de camisas do“Infantil Cayru FC.” Esse nome era o que estava estampado nas camisas. Elas tinham sido adquiridas usadas, de “segunda mão”,daí não sabermos a origem do nome.

Nem acreditei no dia que fui buscar o fardamento, pois teríamos jogo no domingo pela manhã, no campo do Botafogo do Mandaqui. Esse era conhecido.

Arrumei o uniforme aos pés da cama, como que quisesse ter certeza que dali só sairia vestido em mim, e fui dormir para acordar bem cedo e estrear o meu primeiro uniforme de futebol. Foi em 1954, eu tinha 16 anos.

Joguei até os 65 anos, me diverti muito. Nunca sonhei em ser profissional. Nunca fui a um estádio (conheço vários) assistir a uma partida de futebol, mas  nunca me  esquecerei a primeira vez que vesti a camisa do Cayru FC.

Na foto acima agachados da esquerda para a direita sou o segundo e a meu lado Haya meu irmão gêmeo . Lembrança para sempre.

Abaixo, para os admiradores do “ esporte bretão” lances daquele que foi o maior de todos.

                                                                                                                                

 


                                                                                                                                

 

 

 

 

 

 

domingo, 13 de junho de 2021

1966 juão sebastião bar

http://contosdolafa.blogspot.com/2009/03/1966.html?m=1

quinta-feira, 4 de março de 2010

2010/Sebastião Oliveira da Paz


Era uma figura realmente interessante. Voz suave, tranqüilo,sempre bem humorado e um bom contador de historias. Eu o conheci em 1964 durante as "Noites de Bossa"que produzíamos no Teatro de Arena.
Me chamou a atenção a maneira como tratava o seu baixo acústico, instrumento que dominava com maestria.
A sua precisão para afinar, a delicadeza como usava o arco quando os arranjos exigiam, os toques firmes de seus dedos nas cordas, chamavam a atenção daqueles que gostavam de um bom jazz ou de um número de bossa nova.
Passei a segui-lo. Fizemos muitos shows juntos. Cezar Mariano, Jongo Trio, Dick Farney foram alguns companheiros musicais.
Na Rádio Jovem Pan teve um programa de música popular brasileira e depois fez o mesmo na Rádio Trianon. Eram verdadeiras aulas. Com excelente dicção, causava inveja a muitos dos apresentadores dessas emissoras, aonde era muito querido e respeitado.
Um dos últimos contatos que tive com Sabá foi na Av. Paulista.
Caminhava muito a vontade, calçava sandálias e tive que me aproximar bem dele para que me reconhecesse. Usava lentes bem grossas numa clara evidência que sua visão não era a mesma.
Conversamos um pouco, relembramos o passado e nos despedimos.
No último dia 23 de fevereiro, Sabá se foi, e certamente junto a Dick Farney e Toninho Pinheiro estão arrasando com seu som. Pena que agora só para os anjos!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Feliz 2010!!

Desejo a todos que acompanham o "contosdolafa"um alegre natal e um feliz ano novo.
Voltaremos a partir de março de 2010.

domingo, 1 de novembro de 2009

1967/Justiça de Salomão


Foi na inauguração da TV Bandeirantes que o programa “Justiça de Salomão”entrou no ar sob o comando de Salomão Esper. Na produção do programa feras como Alvaro Moya, Rebello Jr., Clodoaldo José, Nicéias e Haya Hohagen. Direção de tv de Ivan Magalhães e os câmeras Pedro Umberto, Alan Kardec e o saudoso Botini.

Conhecemos Salomão durante a campanha eleitoral realizada em 1966, quando Haya e eu fomos responsáveis pelo setor de rádio e tv da ARENA partido do governo. Foi por causa de seu pequeno, mas eficiente “estúdio”, que ficava nos porões da Rádio América, na rua da Consolação esquina com av. Ipiranga, aonde hoje está o Edificio Zarvos. Lá eram gravados e copiados spots e material de candidatos, que eram enviados para outras cidades. Foi o amigo Berto Filho, locutor dos mais requisitados na época, quem nos indicou o “Publisol”, nome do estudio que tinha como sócios Salomão e o espanhol José Velazco. Acabada a campanha eleitoral, ficou a amizade.

Durante o período em que o programa ficou no ar, houve uma convivência grande de Haya com Salomão. Além das conversas diárias, todas as terças feiras, dia do programa, Haya almoçava na casa de Salomão. Era quando discutiam e acertavam detalhes do programa. Sempre após o almoço, Salomão pedia licença, e subia para seu quarto fazer a sua “siesta”. Haya o aguardava, enquanto finalizava o roteiro do programa. A essa altura, Haya dirigia sozinho o “Justiça”.

O programa estava entre os melhores de entrevistas da televisão. Salomão no comando, mostrava muita competência e preparo. Algumas entrevistas ficaram famosas, como a que fez com o superintendente do Hospital das Clinicas de São Paulo, por ocasião do primeiro enxerto de mão feito no Brasil; a entrevista com Moraes Sarmento, na época a maior audiência do rádio paulista, que comoveu os espectadores; a com Blota Jr, que comentou fatos pitorescos de sua carreira; além de muitos políticos, gente do povo como o jogador de sinuca “Carne Frita”, curiosidades como representantes de associações de inventores e de mágicos, enfim enquanto durou foi um sucesso.

Salomão sempre tratou seus entrevistados com a mesma importância, afinal, eram eles as estrelas de seu programa. As perguntas eram sempre as que, com certeza, o telespectador faria.

Na Bandeirantes sempre teve o respeito do “seu João”, que o convocava toda vez que uma autoridade visitava a emissora. Era o mestre de cerimônia de todas as ocasiões.

Hoje aos 80 anos, ao lado de Joelmir Betting e José Paulo de Andrade, participa do Jornal da Bandeirantes Gente das 8 às 10 da manhã, com intervenções brilhantes, que são verdadeiras aulas.

Chega todos os dias bem cedo na emissora com sua pilha de jornais debaixo do braço e sua sacolinha contendo bananas e biscoitos de povilho. Continua a ser o mesmo “Saloma” bem humorado, de bem com a vida e a disposição dos amigos.

Tivemos, Haya e eu o prazer de, junto com nossas esposas, sermos convidados a participar da homenagem que os filhos, Sergio, Márcia e Ana Ligia fizeram ao querido Salomão.

Um almoço cheio de emoção, onde muitos compareceram para o abraço de parabéns ao querido amigo, confirmando a simpatia e bom humor, tão característicos da personalidade de quem soube chegar a maturidade sem perder o brilho e o encanto da juventude.

Aliás, neste almoço, fez questão de dar uma canja, e fazendo dueto com Nelson Gonçalves, cantou o samba onde nos confirma sua filosofia de vida, rica de amigos, cheia de simplicidade e de sabedoria: ”mas depois que o tempo passar, sem que ninguém vai se lembrar que fui embora,por isso é que eu canto assim, se alguem quiser fazer por mim, que faça agora”.

Na foto acima,em primeiro plano Haya Hohagen e ao fundo Salomão Esper conversa com Blota Jr. momentos antes de "Justiça de Salomão entrar no ar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

1967/Roberto Isnard


Durante o período em que trabalhei na Ultragaz, fiz alguns amigos, muitos em função de minha atividade. Lidava com pessoal de imprensa e publicidade. Ora estava dentro de um estúdio acompanhando a gravação de “spots e jingles”, ora em estúdio de tv, verificando se os cenários do “Ultranotícias” estavam em ordem. Não faltavam também os encontros com o pessoal de imprensa, já que não raro, aconteciam explosões de botijões de gás e, como nosso superintendente era também presidente da Associgás, eu era convocado para organizar coletivas onde ele dava as explicações sobre os acidentes, que eram provocados por produtos adquiridos em depósitos clandestinos.

Na época havia uma forte concorrência entre a Ultragáz e a Liquigáz. Era uma verdadeira guerra entre elas e as concorrentes nanicas, bem ao estilo da guerra dos refrigerantes existente entre Coca Cola/ Pepsi Cola e as “Tubainas”.

A briga pelo mercado do gás engarrafado era muito grande. A Ultragáz levava vantagem, pois além de distribuir o produto, tinha uma grande rede de lojas pelo interior, que vendia eletrodomésticos, sendo o fogão a gás o seu principal produto além dos botijões, claro.

Peri Igel era o presidente da Ultragáz e tinha um colaborador bastante conhecido da imprensa. Era o radioamador Roberto Isnard. Ele tinha funções de relações públicas e era muito querido pelos companheiros de trabalho. Já tinha ouvido falar em Roberto Isnard. Era deficiente visual e seu hobby era o radioamadorismo. Já o tinha visto em programas de tv falando sobre o assunto.

Certo dia, fui chamado a seu gabinete para combinarmos a realização de um almoço com a imprensa para homenagear a jornalista Helle Alves, dos Diarios Associados, a única brasileira presente quando da captura de Che Guevara na Bolivia, matéria que foi ao ar no Ultranotícias com muito destaque.

Nunca havia conversado com Roberto e nem sabia que ele trabalhava na Ultragáz. Ficamos bastante tempo falando sobre radioamadorismo, antes de entrar no assunto principal, que era a homenagem a jornalista.

Tinha em minha lembrança um dos filmes mais comoventes que assisti em toda a minha vida, que foi “Se todos os homens do mundo”. Filme francês da fase do “cinema realista” onde seu diretor Christian Jacque retratou, com muita competência, o drama vivido por tripulantes de um barco pesqueiro, acometidos por botulismo, doença provocada pela ingestão de carne deteriorada. Apenas um dos tripulantes estava são e conseguiu passar por rádio uma mensagem de socorro que foi captada por um radio amador, que fez contatos com outros, formando uma corrente internacional, que possibilitou que chegasse aos tripulantes um soro salvador. Um filme cujo tema era a solidariedade, e devia ser exibido nos dias de hoje.

Comentava com Roberto a beleza do filme, e senti nele uma vontade muito grande de falar a respeito do radioamadorismo e de sua atuação. Foi quando me relatou o trabalho que os radioamadores brasileiros desempenharam em 1960 durante o rompimento do açude de Orós no Ceará.

Depois vim a saber da dedicação e participação de Roberto Isnard na ajuda aos moradores da região aonde aconteceu a tragédia, o que lhe rendeu várias homenagens. Roberto também me emocionou.

Passei a frequentar a sala de Roberto e tivemos alí longos e agradáveis papos. Era extremamente bem relacionado e tinha sempre uma história pra contar.

Certa vez fui procurado por uma colega de trabalho, que me comunicou que Roberto seria homenageado no programa “Esta é a sua vida”, comandado pelo jornalista Carlos Gaspar na TV Tupí, e gostaria que eu participasse. Claro que me coloquei a disposicão. Recebí a visita de um dos produtores do programa, passei algumas informações sobre Roberto e no final da conversa entrou em minha sala o Haya meu irmão gêmeo, que tinha ido me buscar no trabalho. Na hora esse produtor teve a idéia de convidar meu irmão para participat também do programa, pois queria fazer uma brincadeira com o Roberto. Só pra lembrar, Haya e eu somos gêmeos idênticos.Temos o mesmo timbre de voz, até nossa mãe nos confundia ao telefone e por várias vezes quando fazíamos programas de rádio juntos, e um de nós saia do estúdio por algum motivo, o outro falava pelos dois. Fomos os dois aos estúdio da TV Tupí no dia do programa como combinado. Roberto estava conosco na platéia, pois havia sido informado que o homenageado era Henning Boilesen, superintendente da Ultragáz. Carlos Gaspar abre o programa, faz todo aquele blábláblá e em vez de Boilesen chama Roberto Isnard dando ênfase a apresentação “E Roberto Isnard ...essa é a sua vida!” Aplausos e Roberto acompanhado por um dos produtores sobe ao palco e alí começa o programa .

Muitos convidados que por algum motivo tinham alguma ligação com Roberto eram chamados para homenagea-lo. Foi quando Carlos Gaspar me chamou e, em vez de eu ir ao encontro de Roberto, foi meu irmão, empurrado por um dos produtores. Haya disse algumas palavras a Roberto que imediatamente retrucou...”Mas esse não é o Lafayette”, em seguida adentrei ao palco e a platéia aplaudiu admirada. Roberto, não sei como, sabia de meu hábito de usar gravatas coloridas, e respondeu com muito humor a Carlos Gaspar, como havia distinguido minha voz, uma vez que nem minha mãe conseguia: “Foi pela cor da gravata”. Roberto Isnard é uma dessas pessoas raras de se encontrar nos dias atuais.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

1966/Blota&Sonia

O período em que trabalhamos na Rádio e Tv Record, foi muito proveitoso em muitos sentidos. Profissionalmente foi o período do aprendizado. Vínhamos do teatro, aonde fazíamos praticamente tudo. Iluminação, direção de cena, produção musical etc.etc.

Na tv é diferente, cada um desses ítens tem um profissional da área. A nossa função era a de criar e outros executavam.

No Blota Jr. Show, nossa primeira experiência televisiva, o nosso trabalho era o de sugerir entrevistas para o comandante do programa, preparar a ficha dos entrevistado com seu perfil e as perguntas que seriam interessantes de se fazer. Esse trabalho era dividido pela equipe, ficando para o apresentador o contato direto com os entrevistados especiais, tais como políticos e figuras de maior relevância.

Lembro-me de uma entrevista que Blota Jr. fez com um indíviduo de nome Aladino Felix, também conhecido como Sábato Dinotos, que dizia ter traduzido as profecias de Nostradamus. Ele era meio estranho e tempos depois apareceu nos noticiários acusado de terrorismo. Durante a entrevista, Blota teve que cortá-lo chamando os comerciais, quando começou a profetizar que “o homem de barro seria expulso e daria lugar ao homem de natal” interpretando o livro de Nostradamus, querendo dizer que Adhemar de Barros, governador de São Paulo na época, seria cassado e em seu lugar, assumiria Laudo Natel.

Bem, a verdade, é que a cassação de Adhemar de Barros aconteceu e Laudo Natel, que era seu vice, assumiu o governo do Estado de São Paulo em 6 de junho de 1966. Sábato Dinoto esteve preso no Dops de onde desapareceu .

Não me lembro quem convidou Sábato Dinotos para o ”Blota Jr. Show“, só me lembro que o” Dr.”, como era carinhosamente chamado o “chefe”, distribuiu bronca pra todo mundo.

Aconteceram passagens muito curiosas durante a nossa permanência na Record. O ambiente era de muita camaradagem entre os companheiros. Tínhamos uma associação de funcionários, que colocava a nossa disposição colônia de férias, empréstimos financeiros, vendas de produtos a preços de fabrica, em fim, quem trabalhava na Record trabalhava feliz.

Além de trabalharmos na Tv, tínhamos um programa de rádio diário, que entrava no ar por volta das 23 horas. Numa atitude pouco comum na época, o salário em espécie e em dia, era recebido durante o horário do programa de rádio. A Record era líder de audiência e tinha uma situação financeira bem saudável .

Foi lá que nasceu, numa iniciativa dos funcionários, a prática do “showbol” no espaço aonde era gravado o Circo do Arrelia. Juntavam produtores, apresentadores, funcionários de todos os níveis para, até altas horas da noite, baterem aquela bola.

Uma das lembranças que guardo daquela época, foi um sorteio que a nossa associação fez de um fusca zero, para todos os funcionários da emissora, durante uma festa de aniversário da Record. Pra variar, chamaram o casal mais famoso e respeitado da TV na época, Blota Jr e sua esposa Sonia Ribeiro, para comandarem o sorteio. Eles eram os mestres de cerimônias de todos os festivais, shows do dia 7, e foram os precurssores das famosas duplas, que até hoje são utilizadas, nos principais programas de nossa TV.

O pessoal já estava impaciente quando Blota e Sonia começaram o sorteio, que tinha muitos brindes antes de chegar ao prêmio maior: o sonho de dez entre dez brasileitos - o fusca zerinho.Depois de muito suspense, Blota anuncia: ”E o fusca vai para o número ...tal!” Todo mundo procura o número tal, e surpresa, o número sorteado era o de Sonia Ribeiro! Tumulto geral, vaias, assobios, gritos de “marmelada”, até que Blota com o microfone em punho acalma o pessoal e anuncia: “Pessoal acho justo que, como a Sonia ganhou o prêmio, ela fique com ele, mas para mostrar a vocês o quanto admiro a todos os companheiros, prometo que sábado que vem, aqui mesmo, estarei sorteando um de meus carros!” Com esse anúncio, a euforia tomou conta de todos presentes, afinal, Blota só desfilava de Mercedes Benz ! A imaginação correu solta, era conversa por todo lado, durante a semana, nos corredores era o único assunto, todos queriam adivinhar qual dos Mercedes o” Dr.” ia sortear.

Conforme o prometido, no sábado seguinte, todos reunidos no páteo e Blota anuncia o sorteio. O carro a ser sorteado adentra o páteo envolto em uma nuvem de fumaça, provocada pelo óleo colocado propositadamente no carburador pelos seus ocupantes, que eram Blota Neto, filho de Blota e Bruninho um de seus assessores. O carro, um Dodge ano 1941 que Blota havia comprado de um funcionário da Secretaria de Turismo para ajudá-lo, por este se encontrar numa situação financeira dificil . A gargalhada foi geral!

A jornalista Lyba Fridman, assessora de comunicação da Record, foi a sorteada. E o que para muitos parecia um “mico”, serviu para tirar a jornalista de um tremendo sufoco. Lyba vendeu seu prêmio para um desmanche e com o dinheiro, conseguiu quitar uma dívida na justiça, cujo prazo se expirava no dia seguinte. Sempre foi grata a Blota Jr. pela atitude que, de uma brincadeira, salvou-a de uma situação difícil.

Lyba foi também, uma das responsáveis pela divulgação de vários trabalhos que realizamos, durante os anos de ouro da bossa nova. Era colunista de rádio, tv e shows e trabalhou nas principais revistas especializadas.

Blota Jr., apesar de não termos tido uma convivência maior, foi uma pessoa que sempre admirei, assim como Dna Sonia Ribeiro, que foi, sem dúvida, a primeira dama da televisão brasileira por sua postura,classe e elegância.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

1938/Rio de Janeiro

Contam que, por volta das 23 horas do dia 28 de setembro, a gaucha de 22 anos de nome Maria de Lourdes, casada com o jornalista peruano Guillermo, começou a sentir sinais de parto. Imediatamente foi acionada a parteira da família que, em poucos minutos, chegava ao casarão da Rua Rainha Elizabeth 105, no bairro de Copacabana. Muito calma, relataram as testemunhas na época, Maria de Lourdes tranquilizava as pessoas a sua volta. Fazia questão de dizer que não sentia dor alguma, apesar das contrações. Sua barriga era bem avantajada.

Na época, o sexo do bêbe era conhecido ou na hora do nascimento, ou através de adivinhações tipo duas tesouras embaixo da almofada de um sofá, uma aberta e a outra fechada e pedia-se a parturiente que escolhesse um lugar para sentar. Se o escolhido fosse o da tesoura fechada era menino, se fosse aberta menina.

Na casa, habitada por Maria e Guillermo, o primogênito Benjamim Sandino, reinava absoluto há 1 ano e 4 meses. Com o casal, morava também o Tio José, irmão de Cecilia mãe de Maria. José havia se desquitado de Izabel, uma francesa com quem havia se casado durante o tempo que morou na França. Guillermo por conta de suas atividades jornalisticas, era correspondente do jornal Diretrizes de Buenos Aires, viajava muito e Tio José fazia companhia para Maria. Cozinheira, copeira, chofer,e babás completavam a população da casa.

Às 23.30 horas, segundo o cartório de registro da Lagoa Rodrigo de Freitas, Maria deu a luz ao primeiro filho. Sim eram 2. Quando o Dr.Saladino, médico da familia chegou, o segundo bebê se esforçava para sair, o que aconteceu 15 minutos depois. Contam que foi uma verdadeira festa. Guillermo, que regressou de Buenos Aires dois dias depois, ficou bastante emocionado. Depois da poeira abaixada, e como acontece até hoje nas melhores famílias, começou a discussão para a escolha dos nomes que seriam dado aos dois.

Maria queria que um dos filhos fosse um batizado por seus tios e, com isso, colocar num dos gêmeos o nome dele. Guillermo com suas tendências políticas, queria homenagear algum de seus ídolos. Com o primogênito, haviam resolvido da seguinte maneira: Benjamim era o nome do querido avô de Maria e Sandino era um revolucionário nicaraguense por quem Guillermo tinha simpatia. Assunto resolvido Benjamim Sandino.

Tio Lafayette e Tia Regina eram tios queridos de Maria, que fez questão de dar-lhes o filho para batismo e ainda colocar o nome do tio em um dos filinhos, no que Guillermo complementou com o nome de um poeta e revolucionário cubano de nome José Martí. Resolvido o segundo problema. Um dos gêmeos foi batizado com o nome de Lafayette José Martí Hohagen. Restava o outro gêmeo, que Maria já desgastada com tanto nome para escolher, deu a Guillermo para que ele resolvesse. Resolveu. Victor Raul Haya, nome do chefe do partido Aprista peruano, e que veio ao Brasil no anos 50 para efetivar o batizado. Mais tarde, com Guillermo assumindo as funções de nomear os filhos, vieram Simon Bolivar(que não resistiu ao parto) e Maria Adilia em homenagem a avó paterna.

Esse foi o início de tudo. Agora, ao completar 71 anos, deixo esse relato e ilustro com algumas fotos essa minha trajetória, muito dela já contada nesse meu blog de memórias. Nas fotos do “slide show” abaixo, será notada a presença do Tio José, que foi sempre o grande companheiro que tivemos até o fim de sua vida.Era o nosso Pepe, como o chamava meu pai, e José, como nós o tratávamos. Supriu a ausência do querido “papito” que, por força de profissão, muitas vezes ficava meses em viagens e que, se vivo, com certeza teria um blog aonde narraria as muitas aventuras vividas durante a sua vida.