segunda-feira, 23 de março de 2009

1966/Juão Sebastião Bar



Juão Sebastião Bar, na época de propriedade do jornalista Paulo Cotrim, era o templo da Bossa Nova em São Paulo. Por ali desfilaram grandes astros paulista da música brasileira, e os cariocas importados do "Beco das Garrafas", reduto do movimento no Rio de Janeiro. Na Major Sertório, alem do "Juão", tinha o "Ela Cravo e Canela ", por onde passaram Claudete Soares, Theo de Barros,Vera Brasil, Hermeto Pascoal, Taiguara, e muitos outros. A casa, de propriedade de um certo Petri, dava muita chance para os novatos.
Para completar, a rua abrigava  o La Licorne conhecida por suas lindas e charmosas mulheres, de vida mais ou menos difícil,capitaneadas pela famosa Laura. 
Por um  tempo, a Galeria Metrópolis, também teve "O  Jogral " do Luiz Carlos Paraná e um barzinho muito interessante, onde só se ouvia Bossa Nova, chamado "Aquela Rosa Amarela " que, por incrível que pareça, era de propriedade do locutor esportivo Silvio Luiz, que mais tarde, casou-se com a extraordinária cantora Márcia. 
Mas, voltando ao "Juão", aquele lugar espremidinho, foi ponto dos grandes da Bossa. Johnny Alf,Cesar Camargo Mariano, Marisa , Elis Regina, Zimbo e os "bicos", como eram chamados pelos músicos profissionais, aqueles que na realidade queriam mesmo, era aparecer. Um destes personagens, conhecida por Teca, nos primeiros acordes subia em uma plataforma, que existia em cima de um pequeno palco, e se punha a dançar como se fosse uma coreografia do Lennie Dale ou da Bety Faria.
O segundo andar, com visão um pouco prejudicada para o palco, era dedicado aos que, além de ouvir música,  queriam curtir um bate papo. 
E foi ali, naquele templo da Bossa Nova paulista que participei da produção do mais inusitado espetáculo de minha vida . Um "happening".
O "happening "era uma manifestação artística tendo como base música aleatória e poesia concreta, que reunia artistas de diversos segmentos em uma performance criada na hora, sem roteiros nem scripts.
Já tinha assistido algo parecido, mas na rua, quando morei em New York.
Propus ao amigo  Blota Neto  novo dono do Juão, que queria dar um "up "na casa, fazer algo diferente e ele topou.
Falei com meu irmão, o maestro Sandino Hohagen que gostou da ideia e junto com seus colegas também maestros Rogério Duprat, Damiano Cozzela e o poeta  Decio Pignatari, comandaram a maior loucura que lá se viu. Vários alunos de música do Rogerio e do Cozzela  foram convidados e se integraram ao quarteto.
Decio lia suas poesias concretas, uma vitrola tocava hinos patrióticos, Sandino regia a "nona sinfonia"de Beethoven apenas lendo a partitura, sem música..
O público começou a se entusiasmar e a interagir. De repente, vai ao palco um rapaz fazendo um discurso inflamado em alemão, Rogerio Duprat com um penico na mão fazia coleta de doações e depois jogava as moedas para o público. A imprensa, que dava ampla cobertura ao evento, também aderiu e no dia seguinte, 10/05/66 o Jornal da Tarde, a Folha de São Paulo, Última Hora e Notícias Populares, publicavam  com destaque aquela "explosão criativa".
Na parede de fundo do palco um imenso out-door da propaganda do famoso xarope São João, com a célebre frase do sujeito ameaçado de mordaça: "Largue-me. Deixe-me Gritar "

5 comentários:

Marcio Macedo (Kibe) disse...

...hahahahahahaha... Putz, estou tentando imaginar esse happening na minha cabeça!

A primeira vez que li sobre isso foi no livro do Caetano Veloso, Verdade Tropical, no qual ele falava das happenings que participou com o pessoal do tropicalismo, primeiro no Brasil e depois em Londres.

Lafa, esse texto seu também me fez lembrar do centro de SP e da Galeria Metrópole: saudades!!!

Abraços e contineu com os contos!
Kibe.

Lafayette Hohagen disse...

Olha Kibe,vc acertou na mosca. É só conferir no livro do Caetano,pra constatar que essa turma foi a que iniciou com ele o movimento Tropicalista . Abraços do Lafa

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Certo, o livro do Caetano é bom para entender os anos 1960 do ponto de vista da cena artística/musical. Mas tem que ter saco para aguentar a vaidade de Veloso e a mania dele se colocar como intelectual. Lembro que li esse livro pra fazer um seminário na USP no curso de Dona Lilia Schwarcz. Foi legal!

Eloa Chouzal disse...

Oi Lafa, estou fazendo uma pesquisa para um livro que tem dois capítulos dedicados a Bossa Nova em São Paulo. Nele, claro, todos estes lugares que vc fala são citados, Juão Sebastião Bar, Jogral, Bossinha, etc. Estou a caça de fotos para ilustar o livro, você teria alguma dica pra me dar de onde/com quem poderia encontrar algo?

obrigada

abraço

Eloá Chouzal

Lafayette Hohagen disse...

Eloa,talvez vc consiga fotos daquela época na agencia Estado. Eles tem um setor que vende fotos para publicações. Quando editei um jornal de bairro nos anos 80, me utilizei bastante de seus arquivos.
Espero ter ajudado. Se não conseguir,contate-me novamente para tentarmos por outro lado. Abraço,e me avise quando do lançamento do livro ok? Lafa