segunda-feira, 3 de agosto de 2009

1965/Plinio Marcos



Durante o período em que ocupamos o Teatro de Arena, nos anos 60, quando produzíamos as famosas “Noites de Bossa”e “ Noites de Jazz”, tivemos a oportunidade de conhecer e conviver com muitos atores, atrizes e autores de vanguarda, que por ali circulavam. Alguns marcaram seus nomes na história da dramaturgia brasileira, como Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal ,Dina Sfat, Paulo José, Claudio e Sergio Mamberti , Jacques Lagoa, Plínio Marcos e muitos outros. Com o sucesso das novelas, muitos viraram superastros, outros direcionaram suas carreiras para a publicidade, alguns continuaram no mundo do teatro e também teve o time dos que desistiram.

Era costume do pessoal do Arena freqüentar o bar Redondo, que até hoje existe nas esquinas da Ipiranga com a Theodoro Baima. Ali, sentados nas mesas do bar, peças teatrais foram combinadas, textos foram escritos e elencos formados. O Bar Redondo era, sem dúvida, a extensão do Arena.

Foi numa daquelas mesas que conheci Plínio Marcos. De jeito desengonçado, fumando muito, desbocado e relaxado nas vestimentas Plínio era uma figura. Com gênio e personalidades fortes, era muito respeitado pelos colegas da classe teatral.

Nessa época trabalhava na TV Tupi, no setor de almoxarifado ou tráfego, não me recordo bem, e suas obras começaram a aparecer, principalmente pela censura e ele rotulado pela mídia como o “escritor maldito” “o boca suja” e vários outros adjetivos.

Reencontrei Plínio Marcos no final dos anos 80, trazido pelo amigo Walter Silva, para participar do nosso futebolzinho, que era jogado religiosamente aos sábados no campo de “society “de terra batida do Colégio Santa Cruz.

Mais gordo, mais famoso, mas, continuava irreverente, desbocado e polêmico. Difícil era o jogo, em que estando presente, não saísse uma discussão, esquecida automaticamente, ao final da “pelada”.

Em 85 fundei com minha mulher Ruth, um jornal de bairro e entre os nossos colaboradores tive Plínio Marcos. Tinha uma coluna sobre esoterismo. Ele mesmo me pediu para ter aquele espaço e divulgar seu trabalho. Não reivindicou nada em troca e eu me senti honrado em tê-lo como colunista do Jornal da Rua.

Certa vez, no começo dos anos 90, ia participar de uma feira esotérica no Anhembi e ligou para me convidar para a inauguração. Fazia questão que eu fosse com Ruth minha mulher, também ligada aos assuntos esotéricos. Por algum motivo, ficamos impedidos de comparecer a inauguração da tal feira.

No dia seguinte, Plínio me ligou nervoso, me dando uma tremenda bronca, falando todos os palavrões que seu extenso vocabulário era conhecedor, sem ao menos deixar que eu explicasse o motivo de minha ausência. Antes de bater o telefone na minha cara, ainda avisou “ E não escrevo mais naquela porra de jornal! ”

Sumiu o meu amigo. Nem no futebol ia mais. Liguei para o Walter, que justificou que ele andava muito nervoso, mas que, pelo que conhecia do Plínio, logo voltaria a falar comigo. Ainda liguei para ele umas duas vezes sem sucesso.

Em 92 durante uma “pelada” com amigos em minha chácara em São Lourenço da Serra sofri um acidente vascular chamado de “Síndrome da Pedrada”, que, segundo o ortopedista que me atendeu, deixa em você a nítida impressão de ter levado uma pedrada na perna. Resultado: perna engessada e imobilidade de mais de 30 dias.

Passava o tempo assistindo TV, ouvindo rádio e lendo livros e jornais. E foi numa leitura de jornal que vi o anúncio do Clube de Criação de São Paulo, sobre um concurso para locutores de comerciais chamado “Ponha a Boca no Microfone”.

Pedi a minha secretária no Jornal da Rua, que mandasse um mensageiro até o Clube de Criação e me trouxesse a ficha de inscrição, gravei uma fita cassete com o texto indicado e mandei. Uns 40 dias depois, já sem o gesso, fui receber o prêmio. Havia sido um dos escolhidos com direito até a um trabalho para a Caloi.

Quando ainda saboreava a conquista, que espantou vários amigos, que me perguntavam se aquele que ganhara o prêmio era um de meus filhos, recebo uma ligação do Walter Silva me passando um recado. Plínio estava com um monólogo no Teatro Cultura Artística, e havia deixado na bilheteria dois ingressos para mim e Ruth.Claro que fomos!

Para nossa surpresa durante o monólogo, muito engraçado e cheio de histórias inusitadas, Plínio de repente, começa a improvisar e inclui no texto uma homenagem pelo fato de eu, com 54 anos, ainda ir em busca de atividades novas, já que nunca havia feito locução comercial . Do teatro, ainda fizemos um tour com Plínio pela noite paulistana oferecendo seus livros, como era o seu costume.

Plínio Marcos morreu em 19 de novembro de 1999 aos 64 anos de idade. Era santista, mas seu clube do coração era o Jabaquara da cidade de Santos.

3 comentários:

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Gostaria muito de ter conhecido Plínio Marcos, figura lendária do teatro e da cultura brasileira! Belo post Lafa!

Abraço do Kibe.

Lafayette Hohagen disse...

Kibe,pelo pouco que te conheço e o bastante que conhecia o Plinio posso te garantir,seria bem interessante um papo entre vcs dois. Coisa de varar várias madrugadas,podes crer. Grande abraço do Lafa.

Raphael Neves disse...

Esse sabia tudo. Queria ter conhecido também. Valeu por trazer essas coisas pra nós, Lafa!